O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi intimado pela Polícia Federal para que entregue seus passaportes. O parlamentar é investigado em dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). Em um dos casos, ele é suspeito, ao lado do advogado Willer Tomaz, de lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas. O senador também é alvo de outra apuração que investiga o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A apreensão do passaporte é uma medida adotada pela Polícia Federal para evitar que investigados deixem o país. O deputado cassado Alexandre Ramagem (PL-RJ), aliado de Flávio, deixou o território nacional pela fronteira com a Guiana no ano passado, na véspera de ser condenado pelo STF por tentativa de golpe. Recentemente, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) defendeu, em entrevista nos Estados Unidos, que o irmão deveria deixar o país caso fosse derrotado nas urnas, sugerindo ainda que ele deveria contestar o resultado do pleito.
As investigações ganharam novos desdobramentos com a adoção de medidas cautelares contra Willer Tomaz e pedidos da Polícia Federal para aprofundar as apurações. Com o fim da disputa presidencial, a expectativa é de que os procedimentos avancem com a análise de novas diligências e dos elementos reunidos pelos investigadores. Um dos casos está sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, responsável pela investigação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo empresas de apostas e plataformas de pagamento vinculadas ao advogado.
A apuração teve origem em um procedimento conduzido pela Polícia Federal no Rio Grande do Sul e chegou ao Supremo após os investigadores identificarem referências ao senador Flávio Bolsonaro, que possui foro privilegiado. O ministro Alexandre de Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores vinculados a Willer Tomaz, além da quebra de seus sigilos bancário, fiscal e cambial. O magistrado também ordenou a suspensão das atividades econômicas, financeiras e empresariais de empresas ligadas ao advogado e adotou medidas relacionadas aos passaportes do investigado.
As determinações foram tomadas após a Polícia Federal apontar indícios de movimentações financeiras suspeitas e possíveis mecanismos de ocultação de recursos por meio de empresas do setor de apostas. Entre os elementos identificados está a existência de uma conta bancária vinculada à empresa Alcazar Holdings, ligada ao advogado, na qual Flávio aparecia como usuário com acesso privilegiado, identificado como "master". A Polícia Federal busca esclarecer a natureza dessa vinculação e se houve movimentações financeiras realizadas pelo parlamentar.
Os investigadores também identificaram registros de viagens, encontros e relações comerciais envolvendo os dois. Uma das linhas de apuração busca esclarecer a origem e o destino de recursos movimentados por empresas relacionadas ao advogado, incluindo uma conta que registrou aproximadamente R$ 130 milhões em operações entre março e maio de 2025. A defesa de Willer Tomaz contesta as medidas adotadas pelo Supremo e afirma que a investigação representa uma devassa indiscriminada de sua vida pessoal e profissional, sustentando que o bloqueio de até R$ 6 bilhões é desproporcional.
Os advogados também negam que Flávio tenha sido usuário com poderes de movimentação financeira em conta da Alcazar. Segundo a defesa, os dois mantêm uma relação de amizade, mas nunca movimentaram recursos um do outro. Flávio Bolsonaro, por sua vez, também nega irregularidades e afirma que sua relação com Willer Tomaz é exclusivamente pessoal.
Além da investigação relatada por Moraes, Flávio Bolsonaro é alvo de outro inquérito no Supremo, sob responsabilidade do ministro André Mendonça, que apura suspeitas relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse. Nesse procedimento, a Polícia Federal investiga a participação do senador na obtenção de recursos junto ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para viabilizar a produção cinematográfica. Mensagens e áudios analisados pelos investigadores indicam que Flávio participou de tratativas com Vorcaro sobre o financiamento do projeto.
A Polícia Federal busca esclarecer a origem dos valores, a estrutura das operações e se houve a prática de crimes como lavagem de dinheiro. A corporação pediu ao ministro André Mendonça a prorrogação por mais 90 dias do prazo para concluir a investigação, diante da necessidade de aprofundar diligências, incluindo análises financeiras e informações que dependem de cooperação internacional. A eventual prorrogação permitirá à corporação dar continuidade à coleta de provas antes da apresentação de um relatório conclusivo. O senador nega ter cometido irregularidades e sustenta que os recursos negociados para a produção do filme tinham natureza privada.
Com a derrota nas eleições, o senador continuará exercendo seu mandato até fevereiro de 2027, quando deixará o Congresso Nacional. Mesmo após a perda do cargo, os procedimentos poderão permanecer sob a competência do Supremo. A Corte firmou, em março de 2025, um novo entendimento sobre o foro por prerrogativa de função, estabelecendo que investigações e ações penais relacionadas a crimes cometidos durante o exercício do cargo e em razão das funções desempenhadas devem permanecer no tribunal mesmo depois do fim do mandato. A decisão, tomada por sete votos a quatro, alterou a jurisprudência anterior e foi complementada pelo Supremo em maio deste ano. No caso de Flávio, a manutenção das investigações no STF dependerá do enquadramento dos fatos apurados nesses critérios, especialmente da existência de relação entre os supostos crimes e o exercício do mandato parlamentar.