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Cia. Alma Livre prepara novos espetáculos para marcar 20 anos de trajetória

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Cia. Alma Livre prepara novos espetáculos para marcar 20 anos de trajetória
Mery também se tornou uma das responsáveis pelo resgate da história de Margarethe Schlünzen. A bonequeira pesquisou sua trajetória e publicou um artigo na revista Móin-Móin, editada pela UDESC e pela SCAR. A artista de Jaraguá do Sul também é citada

Faltando seis meses para completar 20 anos de fundação, a Cia. Alma Livre, de Jaraguá do Sul, prepara uma nova fase de sua trajetória no teatro de bonecos. A peça "Hildas" e as contações de histórias "Periquito Salomão" e "A Fabulosa Máquina de Fazer Amigos" estão previstas para estrear a partir de 2027.


Para a atriz e bonequeira Mery Petty, fundadora da companhia ao lado da atriz Nicoli Pereira e da musicista Beth Mueller, o principal desafio é viabilizar os recursos necessários para transformar esses projetos em espetáculos. A dramaturgia de "Hildas", inspirada na história da avó de Mery, uma imigrante alemã, já está inscrita em editais de fomento.


A importância desses mecanismos de incentivo pode ser medida pela trajetória da própria companhia. Um dos principais espetáculos do grupo, "Kasperl e o Pão que o Diabo Amassou", que circulou por Santa Catarina entre maio a agosto, levou cerca de dez anos para sair do papel e só foi viabilizado após ser contemplado por meio da Lei nº 17.942, de 12 de maio de 2020, e conta com o incentivo das empresas Grupo Tigre, Urbano Alimentos e Grupo Kyly.


Mais da metade das mais de 30 produções criadas pela Cia. Alma Livre ao longo de sua história também contou com recursos de editais públicos.


"Se queremos que novas companhias existam daqui a 20 anos, é preciso garantir condições para que artistas consigam criar, pesquisar e viver daquilo que fazem. Os editais são imprescindíveis para que possamos trabalhar com dignidade e levar essas histórias ao público", afirma Mery, que também participou da criação do Conselho Municipal de Cultura e do Fundo Municipal de Cultura de Jaraguá do Sul e acompanha, há anos, as discussões sobre políticas públicas para o setor.


Cia. Alma Livre: “um grito de liberdade”


Em 2007, quando a Cia. Alma Livre foi criada, Mery e Nicoli eram professoras de teatro na Scar (Sociedade e Cultura Artística) e já trabalhavam com bonecos. Beth, musicista, se juntou às duas na criação de um grupo independente. A vontade de ter liberdade para criar e experimentar novas linguagens deu origem, inclusive, ao nome Alma Livre.


"A criação da Alma Livre foi um grito de liberdade. Eu e a Mery queríamos construir um trabalho em que pudéssemos criar com autonomia, sem abrir mão da nossa individualidade. O nome da companhia nasceu justamente desse desejo de estarmos juntas por escolha, mas livres para seguir também nossos próprios caminhos. A Alma Livre sempre representou essa forma de fazer teatro: com liberdade para experimentar e realizar o que acreditamos”, afirma Nicoli.


O ator Vinícius da Cunha, que hoje divide o palco com Mery e Nicoli na circulação de “Kasperl e o Pão que o Diabo Amassou”, acompanhou a história da Alma Livre desde os primeiros anos. “Eu vi a companhia nascer. Acompanhei muitas apresentações, participei de turnês e, anos depois, tive a alegria de integrar oficialmente o grupo. Foi um caminho muito natural, construído pela admiração que sempre tive pelo trabalho delas e pelo compromisso que a Alma Livre mantém com o teatro de bonecos.”


“Tem Xente Uma Feis!”


A primeira peça da companhia, “Tem Xente Uma Feis! – Kasperl Theater”, estreou em 2008. A montagem homenageava Margarethe Schlünzen, a Móin-Móin, bonequeira que atuou em Jaraguá do Sul entre as décadas de 1950 e 1970. A história também atravessava as próprias memórias de infância de Mery, que teve contato com os bonecos de Móin-Móin e assistiu às suas apresentações.


“A peça foi um dos marcos da trajetória do grupo porque tinha um elemento muito especial: levava para a cena fatos de uma história real. Nós já tínhamos construído os bonecos e decidimos montar na garra e na coragem, sem verba. Queríamos explorar essa linguagem”, relembra.


Mery também se tornou uma das responsáveis pelo resgate da história de Margarethe Schlünzen. A bonequeira pesquisou sua trajetória e publicou um artigo na revista Móin-Móin, editada pela UDESC e pela SCAR. A artista de Jaraguá do Sul também é citada como uma das referências do teatro de bonecos alemão na segunda edição do “Dicionário do Teatro Brasileiro”.


Lambe-lambe e Festival de Formas Animadas


Outro capítulo importante dessa história foi o contato com o teatro lambe-lambe, linguagem que começava a ganhar espaço em Santa Catarina. Mery passou a realizar oficinas, mostras e festivais e tornou-se uma das precursoras dessa forma de teatro no Estado.


O Festival de Formas Animadas de Jaraguá do Sul também teve papel decisivo nesse processo. "A primeira imagem que vem à memória é uma verdadeira chuva de bonecos. Bonecos de todos os tipos, manipulados por gente grande", recorda Mery.


Foi ao acompanhar artistas e diferentes técnicas de manipulação que ela passou a enxergar outra possibilidade para o trabalho que já desenvolvia com bonecos desde a década de 1980. "Entendi que eu brincava de bonecos, mas que podia me profissionalizar com eles."


A decisão de viver do teatro se tornou uma das maiores conquistas dessa trajetória. "Me orgulho de ter optado por viver de teatro, de fazer o que tenho vontade e expressar isso por meio dos bonecos e das apresentações. É uma troca constante com o público", diz. "Comecei na educação, passei pelo comércio, depois pelo teatro amador. Após dez anos, passei a viver de teatro e voltei para a faculdade. Hoje, trabalhar com todas as vertentes das artes cênicas é o meu sustento."


Nicoli também atribui ao festival uma mudança de perspectiva. "O Festival de Formas Animadas abriu um universo que eu desconhecia. Foi ali que descobri a riqueza das formas animadas e me apaixonei pelo teatro lambe-lambe, uma linguagem em que cada artista cria uma obra muito pessoal. Cada caixa revela um jeito único de contar histórias, e isso sempre me encantou."


O impacto desse trabalho também alcançou as novas gerações da companhia. "Conheci o teatro lambe-lambe por meio da Mery e da Nicoli, principalmente nas oficinas que elas realizavam. Foi uma linguagem que me encantou pela delicadeza e pela possibilidade de cada artista criar um universo próprio dentro de uma pequena caixa. Fiquei anos com vontade de fazer a minha e, em 2024, finalmente consegui criar meu primeiro espetáculo em lambe-lambe. Foi um desejo que nasceu ao acompanhar o trabalho delas e que acabou se tornando parte da minha própria trajetória", conta Vinícius.

Redação Revista Nossa

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