Ela treina cinco vezes por semana. Faz musculação, corre, controla a alimentação, ganhou músculo e perdeu gordura. Mas basta entrar em um provador com aquela luz branca vindo de cima para os furinhos aparecerem.
A conclusão costuma vir rápido: “Preciso treinar mais.”
Só que a ciência da celulite mostra que essa conta não fecha tão facilmente. Ter celulite não significa estar sedentária, acima do peso ou com pouco músculo. E uma mulher pode transformar completamente a composição corporal sem conseguir eliminar determinadas depressões da pele. Não porque o treino falhou.
Porque algumas das estruturas responsáveis pela celulite simplesmente não respondem ao exercício da maneira que imaginamos.
“É muito comum a paciente fisicamente ativa chegar quase se justificando. Ela fala que treina, que se alimenta bem, que emagreceu, mas aquele furinho continua ali. Precisamos começar tirando essa culpa da conversa, celulite não é um atestado de falta de disciplina”, explica Dr. Matheus Azevedo, médico especialista em medicina do contorno corporal, otimização metabólica e estratégias regenerativas.
O agachamento muda o músculo. Não necessariamente o que prende a pele
Abaixo da superfície existem estruturas de tecido conjuntivo chamadas septos fibrosos.
Elas atravessam a gordura subcutânea e ajudam a conectar a pele aos planos mais profundos. Em determinadas regiões, esses septos podem exercer uma tração para baixo enquanto o tecido ao redor se projeta em outra direção. É desse jogo de forças que podem nascer algumas das depressões características da celulite.
Um estudo que comparou, por ressonância magnética, áreas com e sem celulite no glúteo de mulheres encontrou septos fibrosos sob 96,7% das regiões com depressões analisadas. Eles também eram significativamente mais espessos nesses pontos do que nas áreas sem os furinhos.
Agora fica mais fácil entender por que fazer mais agachamentos nem sempre resolve.
O exercício pode desenvolver o glúteo, aumentar massa muscular e diminuir gordura corporal. Mas isso não significa que aquele ponto de tecido conjuntivo que está tracionando a superfície será automaticamente eliminado.
“É preciso separar músculo, gordura, pele e tecido conjuntivo. São estruturas diferentes”, explica Dr. Matheus Azevedo. “Uma paciente pode ter excelente musculatura e continuar apresentando depressões muito marcadas porque aquilo que estamos enxergando na superfície não depende apenas do tamanho do músculo ou da quantidade de gordura.”
E por que isso acontece tanto nas mulheres?
Aqui existe uma particularidade anatômica importante. Durante muito tempo, a explicação foi resumida em um desenho bastante popular, nas mulheres, os septos seriam verticais; nos homens, cruzados, como uma rede. A ciência mostra que a história é mais complexa, mas existe, sim, uma diferença estrutural entre os sexos.
Estudos tridimensionais identificaram nas mulheres com celulite uma proporção maior de septos orientados perpendicularmente à superfície da pele. Ao mesmo tempo, os pesquisadores alertam que essa rede é tortuosa e não pode ser reduzida simplesmente a “linhas verticais nas mulheres e linhas inclinadas nos homens”.
Outra investigação anatômica encontrou mais conexões entre os septos no tecido masculino, além de maior resistência dessas estruturas quando submetidas à ruptura. Os autores concluíram que a combinação entre suporte da pele, arquitetura da gordura e morfologia dos septos ajuda a explicar por que a celulite é muito mais frequente entre mulheres.
Revisões mais recentes reforçam essa visão: o que enxergamos na superfície é resultado de uma arquitetura tridimensional envolvendo pele, gordura, fáscia e tecido conjuntivo e existem diferenças anatômicas importantes entre homens e mulheres.
Emagrecer pode ajudar. Mas não existe promessa de pele lisa
Isso significa que gordura não tem importância? Não.
Ganho de peso e aumento do tecido adiposo podem tornar a celulite mais evidente em algumas mulheres. Da mesma maneira, emagrecer e melhorar a composição corporal podem modificar bastante o contorno. O erro está em transformar essa relação em uma regra absoluta.
Uma revisão sobre celulite destaca justamente que dieta, exercício e estilo de vida não parecem explicar sozinhos seu desenvolvimento, embora ganho de peso e obesidade possam acentuar sua aparência. A condição é relatada em aproximadamente 80% a 90% das mulheres após a puberdade.
Ou seja, estamos falando de uma característica extremamente frequente do corpo feminino, não de uma consequência exclusiva do sedentarismo. É aqui que o universo fitness pode criar uma expectativa difícil de cumprir.
Fotos são produzidas com luz favorável, contração muscular, poses, edição e ângulos cuidadosamente escolhidos. Na vida real, o mesmo corpo pode parecer completamente diferente sentado, caminhando, com os músculos relaxados ou sob uma iluminação lateral.
Por isso, encontrar textura ou depressões na pele de um corpo definido não deveria causar surpresa.
Talvez você não precise treinar mais. Precise entender o que está vendo
É também aqui que muda a maneira de pensar o tratamento. Nem toda irregularidade que uma mulher chama de celulite possui exatamente o mesmo mecanismo.
Pode haver depressões marcadas pela tração dos septos. Pode existir flacidez associada. Alterações na qualidade da pele, distribuição de gordura e outros componentes também podem participar.
“Quando a paciente chega apontando uma irregularidade, eu não quero saber apenas se ela treina ou qual é o percentual de gordura dela”, diz Dr. Matheus Azevedo. “Quero entender qual estrutura está predominando naquele ponto. Porque tratar celulite começa em reconhecer o que está causando aquela aparência, e não em colocar todas as pacientes dentro do mesmo protocolo.”
Não significa que toda mulher com celulite precise de um procedimento. Significa apenas que existe uma diferença enorme entre tratar uma estrutura e tentar compensá-la com mais esforço físico.