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Por que pensamos tanto antes de dormir?

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Por que pensamos tanto antes de dormir?
Outro fator que pode dificultar o sono é a própria cobrança para dormir. A pessoa olha para o relógio e pensa que precisa descansar porque terá compromissos no dia seguinte. Em seguida, começa a calcular quantas horas ainda terá disponíveis. A preocu

Para algumas pessoas, o momento de deitar não representa exatamente o fim do dia. É quando começam a surgir pensamentos que foram adiados ao longo da rotina: uma conversa que incomodou, uma decisão que precisa ser tomada, uma preocupação com o futuro ou simplesmente aquela sensação de que ainda existe algo para resolver. O corpo pede descanso, mas a mente continua em atividade.




A dificuldade de desacelerar pode estar relacionada à forma como vivemos durante o dia. Em uma rotina marcada por excesso de estímulos, compromissos e informações, nem sempre existe espaço para perceber o que sentimos ou organizar mentalmente as experiências vividas. Quando o ambiente finalmente fica silencioso, essas questões podem aparecer com mais intensidade.




“Durante o dia, muitas vezes conseguimos nos manter ocupados e funcionando. À noite, quando diminuímos os estímulos externos, podemos entrar em contato com pensamentos, sentimentos e preocupações que não tivemos tempo de perceber ou elaborar”, explica Blenda Oliveira, doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).




Pensar, por si só, não é um problema. A reflexão pode ajudar a compreender uma situação, organizar sentimentos e encontrar caminhos. A dificuldade aparece quando o pensamento se transforma em repetição. É o caso de quem passa horas revisitando uma conversa, imaginando cenários futuros ou tentando encontrar respostas para situações que não podem ser resolvidas naquele momento.




Na psicologia, esse processo pode ser compreendido a partir do conceito de pensamentos automáticos, desenvolvido por Aaron Beck. Eles são pensamentos que surgem espontaneamente e podem influenciar a maneira como interpretamos uma situação e reagimos emocionalmente a ela. Quando estamos preocupados ou ansiosos, esses pensamentos podem assumir um caráter mais negativo e antecipatório.




“Nem sempre aquilo que pensamos durante a noite corresponde ao tamanho real do problema. O silêncio e a falta de outras atividades podem fazer com que uma preocupação ganhe uma dimensão muito maior. A mente tenta encontrar respostas e antecipar possibilidades, mas nem sempre consegue chegar a uma conclusão”, afirma Blenda.




Outro fator que pode dificultar o sono é a própria cobrança para dormir. A pessoa olha para o relógio e pensa que precisa descansar porque terá compromissos no dia seguinte. Em seguida, começa a calcular quantas horas ainda terá disponíveis. A preocupação com o sono passa, então, a ser mais um elemento de tensão.




Para Blenda, é importante compreender que nem todo pensamento precisa ser resolvido imediatamente. “Existem questões que precisam de tempo, de conversa, de elaboração. Não precisamos solucionar tudo antes de dormir. Algumas situações podem esperar até amanhã. Reconhecer esse limite também é uma forma de cuidado consigo mesmo.”




Uma alternativa é colocar no papel aquilo que está ocupando a cabeça antes de ir para a cama. Anotar tarefas do dia seguinte, preocupações ou assuntos que precisam ser retomados pode ajudar a organizar mentalmente o que está pendente. O objetivo não é eliminar os pensamentos, mas diminuir a sensação de que é preciso permanecer pensando para não esquecer alguma coisa.




A especialista também chama atenção para uma questão que vai além do momento de dormir. “Às vezes, a pergunta não deveria ser apenas ‘como faço para parar de pensar?’, mas ‘o que eu não estou conseguindo pensar durante o dia?’. A noite pode ser o primeiro momento em que encontramos silêncio suficiente para perceber o que estamos sentindo.”




Por isso, uma mente que não desliga pode ser um sinal de que existe uma sobrecarga que merece atenção. Não significa necessariamente que exista um transtorno, mas pode indicar que preocupações, cobranças e emoções estão ocupando um espaço grande demais na rotina.




Quando a dificuldade para dormir se torna frequente e começa a interferir no humor, na concentração, na disposição ou nas atividades do dia seguinte, procurar ajuda profissional é importante. A insônia e os problemas relacionados ao sono podem ser avaliados e tratados, especialmente quando existe um padrão persistente.




“Descansar não deveria ser mais uma tarefa que precisamos cumprir perfeitamente. O sono não precisa virar um lugar de cobrança. Às vezes, precisamos permitir que algumas coisas permaneçam sem resposta durante algumas horas para que o corpo e a mente possam, finalmente, descansar”, conclui Blenda.




Sobre Blenda Oliveira: ela é doutora em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e  psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). É autora do livro Fazendo as pazes com a ansiedade, publicado pela Editora Nacional, que foi indicado ao Prêmio Jabuti em 2023. A especialista também palestra sobre saúde mental e autoconhecimento e vem se dedicando ao tema do envelhecimento.


Redação Revista Nossa

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