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O fim da “cara de harmonização”: por que a naturalidade virou o novo luxo na estética

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O fim da “cara de harmonização”: por que a naturalidade virou o novo luxo na estética
Em 19 de agosto de 2026, uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) reacendeu o debate sobre quem pode realizar procedimentos de harmonização facial no Brasil

Em 19 de agosto de 2026, uma decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) reacendeu o debate sobre quem pode realizar procedimentos de harmonização facial no Brasil. Por maioria de votos, a 8ª Turma do tribunal anulou a resolução do Conselho Federal de Odontologia (CFO) que reconhecia a harmonização orofacial como especialidade odontológica e permitia a realização de procedimentos estéticos invasivos em toda a face. A decisão atendeu a recursos apresentados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).




A disputa, que se arrasta desde 2019, envolve os limites de atuação de diferentes categorias profissionais na área de estética. O entendimento do tribunal foi de que uma resolução de conselho profissional não poderia ampliar o campo de atuação de uma profissão além dos limites previstos em lei. A decisão ainda não é definitiva. O CFO informou que pretende recorrer e orientou os cirurgiões-dentistas a manter os atendimentos de harmonização orofacial até uma decisão final.




O episódio coloca em evidência uma questão que ganhou espaço nos consultórios: como garantir que procedimentos estéticos sejam realizados por profissionais capacitados e preparados para lidar com possíveis complicações.




Para a dermatologista Maria Lígia Mendonça, que atua há 14 anos na área, a discussão ocorre em paralelo a uma mudança no comportamento dos pacientes. Em vez de transformar o rosto, muitos buscam preservar suas características e corrigir apenas o que incomoda.




“Hoje, o paciente chega muito mais consciente do que quer. Ele não quer necessariamente mudar o rosto. Quer melhorar aquilo que o incomoda, mas continuar se reconhecendo no espelho”, afirma.




A mudança acontece em um mercado que segue em expansão. Segundo o Global Survey 2024 da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), publicado em 2025, o Brasil liderou o ranking mundial de cirurgias plásticas estéticas. Considerando procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos, o país aparece em segundo lugar, atrás apenas dos Estados Unidos. A toxina botulínica está entre os procedimentos não cirúrgicos mais realizados.




Ao mesmo tempo, especialistas identificam uma reação aos exageros que marcaram parte da estética facial nos últimos anos. Rostos muito volumosos, maçãs do rosto marcadas, lábios excessivamente preenchidos e mandíbulas muito definidas ajudaram a popularizar o chamado “Instagram face”.




“A gente passou por um período de muitos excessos, de muito exagero. Hoje, praticamente todo paciente que chega pela primeira vez me diz a mesma frase: ‘vim aqui porque sei que o resultado é natural’”, relata Maria Lígia.




Da padronização à personalização




A popularização dos preenchimentos e de abordagens que tratam diferentes regiões do rosto de forma integrada ampliou as possibilidades dos procedimentos, mas também favoreceu resultados mais padronizados.




“Quando a gente traz o injetável para uma abordagem mais global do rosto, os resultados melhoram muito. Mas isso também abriu espaço para exageros, para uma padronização que a gente não deveria buscar”, avalia a dermatologista.




Para ela, a naturalidade depende de uma avaliação individualizada, que considere proporções, estrutura facial, idade, qualidade da pele e as expectativas de cada paciente.




“É claro que a gente escuta o paciente, escuta o que incomoda, o que ele deseja. Mas o limite entre o que vai ficar natural e o que vai ficar exagerado tem que ser apurado pelo profissional. Isso não tem preço.”




Segurança entra no centro da escolha




A discussão sobre formação profissional também ganha relevância diante dos riscos dos procedimentos injetáveis. Durante o julgamento do TRF-1, representantes do CFM destacaram que a questão envolve diretamente a segurança do paciente.




Um dos exemplos citados foi o ácido hialurônico. Quando aplicado de forma inadequada, o produto pode atingir vasos sanguíneos e, em situações raras, provocar complicações graves, incluindo perda de visão.




Para Maria Lígia, a segurança deve fazer parte da decisão tanto quanto o resultado estético.




“Quando falamos de procedimentos injetáveis, não estamos falando apenas de estética. Estamos falando de anatomia, conhecimento técnico e capacidade para reconhecer e tratar uma eventual complicação. Por isso, a formação do profissional é tão importante quanto o resultado que ele promete entregar”, explica.




A recomendação é que a escolha não seja baseada apenas em preço, fotos de antes e depois ou número de seguidores nas redes sociais. Formação, conhecimento anatômico, experiência e estrutura para atender eventuais complicações também devem ser considerados.




“Comparar por preço é se enganar pensando que está comprando a mesma coisa. Quando a gente vende um serviço, não existe comparação por preço. A gente entrega resultado, tecnologia, segurança e capacitação”, afirma Mendonça, que também atua na formação de médicos em tratamentos injetáveis.




Nesse novo momento da estética, o conceito de luxo também muda. Em vez de um rosto que denuncia o procedimento, ganha valor o resultado que preserva a identidade do paciente.




A “cara de harmonização” pode não ter desaparecido, mas deixou de ser o objetivo de muitos pacientes. A nova referência é uma estética mais discreta, individualizada e planejada, em que o melhor resultado pode ser justamente aquele que ninguém percebe.

Redação Revista Nossa

Redação Revista Nossa

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