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Burnout tem gênero? Mulheres representam 71,6% das notificações no Brasil

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Burnout tem gênero? Mulheres representam 71,6% das notificações no Brasil
“É importante observar quando o cansaço deixa de ser pontual e passa a fazer parte da rotina. A pessoa pode começar a perceber mudanças no humor, na relação com o trabalho e até nas relações pessoais. Nesses casos, buscar ajuda profissional é uma for

A síndrome de burnout, caracterizada pelo esgotamento relacionado ao trabalho, tem avançado no Brasil e apresenta uma diferença significativa entre homens e mulheres. Um estudo epidemiológico sobre os registros da doença no país entre 2014 e 2024 identificou que 71,6% das notificações ocorreram entre mulheres. A faixa etária de 35 a 49 anos concentrou 56,7% dos casos, enquanto 2024 registrou o maior número de notificações de toda a série analisada. Ao longo da década, houve crescimento de 96,4% nos registros.



Os números ajudam a colocar em evidência uma questão que merece atenção: por que as mulheres aparecem de forma tão expressiva nas notificações de burnout?



Para Karen Trevisan, coordenadora do curso de Psicologia do UNICEUSC, os dados podem contribuir para ampliar a discussão sobre as condições que envolvem a saúde mental feminina no ambiente profissional e na vida cotidiana. A especialista destaca que aspectos como sobrecarga, múltiplas jornadas, pressão por desempenho e desigualdade na divisão das responsabilidades de cuidado podem fazer parte dessa reflexão, embora não possam ser apontados como causas diretas do burnout apenas a partir dos resultados do estudo.



“Os dados mostram uma diferença importante entre homens e mulheres e nos convidam a olhar para o contexto em que esse sofrimento acontece. Não podemos reduzir o burnout à falta de resiliência ou à capacidade individual de lidar com a pressão. É preciso considerar também as condições de trabalho, as demandas acumuladas e a forma como as responsabilidades são distribuídas”, explica Karen.



*Estresse não é sinônimo de burnout*


Embora estejam relacionados, estresse e burnout não são a mesma coisa. Situações pontuais de estresse podem ocorrer diante de períodos de maior pressão e, em muitos casos, são passageiras. O burnout, por outro lado, está associado a um processo de esgotamento relacionado ao contexto ocupacional e pode comprometer diferentes aspectos da vida.



Entre os sinais que merecem atenção estão cansaço persistente, dificuldade de concentração, irritabilidade, perda de motivação, sensação de incapacidade, distanciamento emocional e redução do interesse pelas atividades profissionais.



“É importante observar quando o cansaço deixa de ser pontual e passa a fazer parte da rotina. A pessoa pode começar a perceber mudanças no humor, na relação com o trabalho e até nas relações pessoais. Nesses casos, buscar ajuda profissional é uma forma de cuidado e não um sinal de fraqueza”, orienta a coordenadora.



*Sobrecarga não deve ser naturalizada*


A presença predominante das mulheres nas notificações também permite discutir como a sobrecarga pode ser percebida e naturalizada. Conciliar carreira, responsabilidades domésticas, maternidade, cuidados com familiares e expectativas de desempenho pode representar uma rotina de alta demanda para muitas mulheres.



Para a especialista, entretanto, é importante evitar generalizações. Os dados apontam uma diferença relevante nas notificações, mas não permitem afirmar, isoladamente, que determinados fatores sejam responsáveis pelo desenvolvimento da síndrome.



“Precisamos ter cuidado para não transformar uma questão coletiva em uma responsabilidade exclusivamente individual. Falar sobre saúde mental também significa discutir ambientes de trabalho mais saudáveis, limites, reconhecimento e condições adequadas para que as pessoas possam exercer suas atividades sem que o sofrimento seja tratado como algo normal”, afirma Karen.


Karen reforça que o cuidado com a saúde mental precisa combinar estratégias individuais com ações coletivas e institucionais.


“Vale destacar que existem estratégias de cuidado com a saúde mental em nível individual, como o processo de psicoterapia, mas é muito importante que, concomitantemente a essa, existam também estratégias em níveis grupais e institucionais, que podem se dar por meio de políticas institucionais e sociais de apoio à saúde mental de forma ampla, tais como o fornecimento de suporte para o desenvolvimento pessoal e profissional e a gestão de riscos psicossociais.”


A especialista também ressalta que reconhecer os sinais precocemente pode favorecer a busca por orientação adequada e evitar que o sofrimento seja prolongado.

Redação Revista Nossa

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