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Em SC, mulheres protagonizam apenas 8% dos shows em festivais de música instrumental

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Em SC, mulheres protagonizam apenas 8% dos shows em festivais de música instrumental
Além da pesquisa quantitativa e qualitativa, “O Palco que Nos Deve” desenvolveu uma plataforma digital voltada à valorização de mulheres instrumentistas, compositoras e arranjadoras da música instrumental brasileira. Nos canais oficiais do projeto no

Santa Catarina aparece abaixo da média nacional na presença de mulheres instrumentistas em festivais de música instrumental e os números revelam um cenário de forte desigualdade de gênero nos palcos. É o que mostra a pesquisa inédita “O Palco que Nos Deve: Mulheres e a conquista do espaço na Música Instrumental”, desenvolvida pelas pesquisadoras Valentina Bravo e Caroline Cantelli, com o apoio de outras quatro especialistas.


O levantamento aponta que mulheres protagonizaram apenas 8,4% dos shows analisados em festivais catarinenses de música instrumental entre 2024 e 2025. Nacionalmente, o índice é de 10%. Quando o recorte considera mulheres negras instrumentistas, os dados expõem um apagamento ainda mais severo: em Santa Catarina, elas representaram menos de 1% das artistas identificadas nos palcos e não protagonizaram nenhum dos shows analisados no período.


A pesquisa analisou 28 festivais brasileiros de música instrumental, jazz, blues e choro, totalizando 522 shows mapeados e 2.369 artistas identificados. Santa Catarina concentrou oito dos festivais estudados — a maior representação individual de um único estado na amostragem nacional. Ao todo, foram analisados 119 shows realizados em território catarinense.


Os dados mostram que mulheres instrumentistas representaram 12,4% das artistas presentes nos palcos catarinenses, enquanto homens corresponderam à ampla maioria das apresentações. Segundo as pesquisadoras, embora Santa Catarina apresente índices ligeiramente superiores aos nacionais, o cenário ainda evidencia uma estrutura historicamente desigual no circuito instrumental.


Além dos números gerais, a pesquisa identificou mudanças recentes na programação dos festivais. Em 2024, metade dos eventos analisados incluiu ao menos uma mulher protagonista. Já em 2025, esse percentual subiu para 75%, apesar de muitos deles só contarem com a participação de uma mulher ou um grupo feminino. Para as pesquisadoras, o avanço é resultado da mobilização de artistas, coletivos e iniciativas que vêm reivindicando maior espaço para mulheres instrumentistas, compositoras e arranjadoras. Ao mesmo tempo, reflete discussões mais amplas sobre gênero que atravessam a sociedade e têm pressionado instituições culturais e curadorias a rever práticas historicamente excludentes.


Apesar disso, o estudo aponta que o aumento da presença feminina ainda ocorre de forma pontual. Na maioria dos festivais analisados, havia apenas um show protagonizado por mulher em toda a programação, padrão que a pesquisa identifica como tokenismo — quando a inclusão acontece de maneira simbólica, sem alteração estrutural do cenário.


Para Valentina Bravo, idealizadora e pesquisadora do projeto, os resultados mostram que a desigualdade não está relacionada à ausência de produção artística feminina. “A pesquisa deixa evidente que existe uma produção extremamente potente feita por mulheres, inclusive em Santa Catarina. O problema não é falta de talento, mas as barreiras históricas de acesso aos espaços de circulação, reconhecimento e liderança dentro da música instrumental”, afirma.


Caroline Cantelli, pesquisadora e coordenadora de comunicação do projeto, destaca que muitas das artistas entrevistadas relataram trajetórias marcadas por isolamento e necessidade constante de validação técnica. “As musicistas seguem criando redes de apoio, coletivos e movimentos que ajudam a transformar esse cenário. Em Santa Catarina, encontramos artistas fundamentais para a cena instrumental brasileira, construindo espaços de formação, circulação e fortalecimento do protagonismo feminino”, diz.


Entre as musicistas catarinenses entrevistadas pelo projeto estão Natália Livramento, Mari Leonel e Denise de Castro. As três artistas atuam em diferentes frentes da música instrumental e ajudaram a consolidar iniciativas voltadas à valorização da presença feminina na cena cultural catarinense.


A pesquisa também ouviu instrumentistas de diferentes regiões do país, como Léa Freire, Camila Alves, Larissa Umaytá e Suzete Santos. As entrevistas abordaram temas como mercado de trabalho, maternidade, racismo, ausência de referências femininas, festivais, formação musical e estratégias coletivas de resistência.


Além da pesquisa quantitativa e qualitativa, “O Palco que Nos Deve” desenvolveu uma plataforma digital voltada à valorização de mulheres instrumentistas, compositoras e arranjadoras da música instrumental brasileira. Nos canais oficiais do projeto no YouTube e Instagram, foram publicados perfis das 12 artistas entrevistadas, além de trechos das conversas e conteúdos audiovisuais que ajudam a ampliar a circulação e a memória dessas trajetórias.


Contemplado pelo Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura – Edição 2025, o projeto propõe uma reflexão sobre quem historicamente ocupa os espaços de legitimidade e reconhecimento na música instrumental brasileira. Ao reunir dados, escuta e difusão de conteúdo, a iniciativa aponta que ampliar a presença feminina nos palcos exige transformações que vão além da inclusão pontual nas programações — passando também pela formação, pelas redes de circulação e pelas formas de reconhecimento dentro do campo musical.

Redação Revista Nossa

Redação Revista Nossa

Com mais de duas décadas de tradição no mercado, a Revista Nossa é fruto do empreendedorismo de Moa Gonçalves, que também assina coluna social no jornal diário mais antigo de Jaraguá do Sul, O Correio do Povo. Sempre ligado à imprensa, tem no currículo a edição do semanário “Jaraguá News” e do tele programa de variedades “Programa do Moa”. A revista, no entanto, é seu investimento mais sólido, apostando em um nicho de mercado até então pouco explorado na região

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