Na política brasileira, algumas frases envelhecem mais rápido do que leite ao sol. Uma delas é o famoso "faça o que eu digo, não faça o que eu faço", que ganhou um novo capítulo após vir à tona uma ação trabalhista envolvendo o deputado federal Kiko Celeguim, um dos mais entusiasmados defensores do fim da escala 6x1.
Da tribuna, o parlamentar costuma alertar sobre os riscos das jornadas excessivas, o adoecimento dos trabalhadores e a necessidade de relações de trabalho mais humanas. Um discurso que, convenhamos, encontra eco em boa parte da população.
O problema é que, segundo ação apresentada à Justiça do Trabalho, um ex-motorista que trabalhou para o deputado afirma ter enfrentado uma rotina que faria qualquer defensor dos direitos trabalhistas pedir socorro ao sindicato. A acusação relata jornadas que chegariam a 16 horas diárias, trabalho sem folga semanal em determinados períodos e ausência de registro em carteira por mais de dois anos.
Se as alegações forem confirmadas pela Justiça, o caso entrará para a galeria das situações em que a teoria parece ter perdido contato com a prática. Afinal, combater a exploração do trabalhador durante o dia e, supostamente, submetê-lo a uma rotina exaustiva nos bastidores não é exatamente o melhor exemplo de coerência política.
A ação ainda será analisada e o deputado terá a oportunidade de apresentar sua versão dos fatos. O devido processo legal precisa ser respeitado. Mas o episódio já expõe um problema recorrente da política nacional: a velocidade com que alguns princípios desaparecem quando atravessam a porta do gabinete.
No Brasil, infelizmente, não é raro encontrar líderes que defendem direitos trabalhistas em discursos inflamados, mas que enfrentam questionamentos justamente sobre o tratamento dispensado aos próprios funcionários. Parece que, para alguns, a redução da carga de trabalho é uma excelente ideia — desde que aplicada na empresa dos outros.
Enquanto a Justiça apura os fatos, fica a reflexão: coerência continua sendo um dos benefícios mais raros da vida pública brasileira. E, ao contrário das horas extras, não há projeto de lei capaz de compensar sua falta.