Enquanto o cidadão comum enfrenta filas, juros altos e boletos cada vez mais criativos, uma parcela privilegiada da República parece ter acesso a um programa de relacionamento bem mais sofisticado. Segundo investigações envolvendo o Banco Master, o cardápio incluía mansões cinematográficas, viagens internacionais, festas exclusivas e até um serviço especial apelidado pelo próprio organizador de "kengas".
A palavra, que no Nordeste tem origem antiga e significado popular bastante conhecido, ganhou destaque nacional após aparecer em mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro. Em uma delas, o pedido era direto: "Preciso de um avião para as kengas". Nada de voo comercial, conexão apertada ou bagagem despachada. Afinal, quando o networking é de alto nível, o transporte também precisa acompanhar.
As investigações apontam que as confraternizações aconteciam em cenários dignos de catálogo imobiliário de luxo. Uma mansão em Trancoso, no litoral baiano, teria servido de palco para encontros reservados frequentados por autoridades, políticos e integrantes do Judiciário. O regulamento da casa era simples: celular proibido. O que acontecia na festa deveria permanecer na festa — pelo menos essa era a intenção.
O caso lembra uma velha máxima da política brasileira: os bastidores costumam ser mais movimentados do que os discursos oficiais. Enquanto isso, o contribuinte assiste da arquibancada, tentando entender como algumas portas se abrem com tanta facilidade para uns e permanecem fechadas para quase todos os outros.
No fim das contas, o escândalo não está apenas na presença das "kengas", mas na suspeita de que elas teriam sido transformadas em ferramenta de aproximação entre dinheiro, poder e influência. Uma espécie de lobby tropical, com vista para o mar, champanhe importado e lista VIP.
Se confirmado tudo o que está sendo investigado, fica a lição: em certos círculos do poder, a transparência continua sendo a convidada que nunca recebe o endereço da festa.