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Meu filho ainda não fala: quando se preocupar?

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Meu filho ainda não fala: quando se preocupar?

Desde o momento em que nasce, a criança inicia um universo silencioso de comunicação: sorrisos, olhares, choro, balbucios… Aos poucos, essas expressões evoluem e dão lugar às primeiras palavras. Para a família, cada som novo é uma vitória — um lampejo de vida que se transforma em voz. Mas, quando o silêncio persiste ou a fala tarda, surgem as dúvidas: “Será que o meu filho está atrasado?”, “É normal que não fale ainda?”, “Quando devo procurar ajuda?”. Como fonoaudióloga e psicopedagoga, acredito que essas perguntas merecem ser respondidas com cuidado, carinho e também com base técnica. Aqui vai uma trajetória com clareza sobre o que observar, quando agir e como intervir com acolhimento.

  1. Entendendo o que significa “ainda não falar”

Em primeiro lugar, precisamos distinguir: “falar” não é apenas emitir qualquer som; envolve um conjunto de habilidades que se entrelaçam — ouvir, compreender, processar, imitar, articular e interagir. A produção verbal — dizer “mamãe”, “papai”, “água” — é apenas a ponta visível de um iceberg maior.

A literatura recente destaca que os atrasos de fala (ou linguagem) são bastante comuns. Por exemplo, em um artigo publicado no JAMA Pediatrics, os autores estimam que cerca de 20% das crianças apresentam alguma forma de atraso de fala ou linguagem. Outro estudo encontrou prevalência de 2,53% em uma amostra hospitalar, com fatores de risco específicos como asfixia perinatal, história familiar e estimulação insuficiente. O que isso significa clinicamente? Que “ainda não falar” não é automaticamente um problema grave, mas também não pode ser descartado com banalidade.

Como profissional que atua em uma clínica multidisciplinar — onde a voz, a escuta qualificada e o vínculo são centrais —, vejo que muitas famílias ficam angustiadas pelo silêncio ou pelos “poucos sons”. Por isso, trazer luz aos marcos de desenvolvimento ajuda a tranquilizar e a monitorar com os olhos da ciência e do cuidado.

  1. Marcos esperados no desenvolvimento da fala e linguagem

Embora cada criança tenha seu ritmo — o que sempre reforço perante pais e cuidadores —, existem “marcos” ou faixas de idade aproximadas que funcionam como referência. Verificar se o ritmo está muito destoante pode sinalizar a necessidade de atenção. Segundo a FDNA (When to Worry About Speech Delay (or not)), seguem alguns parâmetros:
• Aos 12 meses, espera-se que o bebê localize a fonte de um som, atenda ao próprio nome, acene “tchau”, inicie o balbucio (por exemplo: “mamama”, “dadada”) e diga pelo menos uma palavra.
• Entre 1 e 2 anos, a criança já está começando a seguir comandos simples, nomear objetos/pessoas e usar gestos com suporte (“quero”, apontar).
• Aos 2 anos, tende-se a ver vocabulário de cerca de 50 a 100 palavras, frases de duas palavras (“quero água”, “meu carro”), ser compreendida por adultos familiares em parte e seguir instruções sem gesto.
• Aos 3 anos, a criança normalmente possui cerca de 200 a 1000 palavras, faz frases com 3 ou 4 palavras, pergunta “por quê?”, conta partes de histórias e é entendida por estranhos em grande parte.

Esses são valores aproximados, não regras rígidas. Porém, quando o prazo está bem ultrapassado e outros sinais acompanham, o alerta acende.

  1. Quando o atraso deve despertar atenção

É natural que a família espere, observe e estimule — essa atitude é valiosa. Entretanto, como fonoaudióloga, destaco alguns sinais de alerta que pedem avaliação mais imediata:
• A criança não balbucia ou produziu apenas balbucios atípicos/escassos aos 12 meses.
• Ainda aos 18 a 24 meses, fala menos de 50 palavras ou não combina palavras em frases simples.
• A fala não é inteligível para os pais ou cuidadores próximos, ou é quase inexistente.
• A criança não responde ao nome ou parece não ouvir bem — o que sugere investigação auditiva.
• A criança parou de fazer progressos (regressão) — por exemplo, já dizia palavras e agora parou ou perdeu palavras.
• A criança apresenta múltiplos atrasos no desenvolvimento (motor, socioemocional, cognitivo) ou condições médicas associadas (ex.: histórico de otites, prematuridade, uso prolongado de chupeta, ambiente multilíngue sem suporte, estímulo verbal reduzido) — conforme estudos de risco.
• A convivência com telas é extensa, o ambiente interativo é escasso ou o estímulo da fala é reduzido — há evidência de que um ambiente pobre em linguagem pode agravar o atraso.

  1. Por que “esperar e observar” pode não ser sempre a melhor estratégia

Às vezes, pais ou cuidadores recebem frases como “ele vai falar quando quiser” ou “deixem a criança no tempo dela”. Embora bem intencionadas, essas expressões podem atrasar o acesso à intervenção e reduzir as chances de um ótimo progresso. A pesquisa mostra:
• O estudo Speech and Language Delay in Children identificou que atrasos não tratados podem ter impacto no desempenho escolar, social e emocional.
• A investigação Speech and Language Skills of Low-Risk Preterm and Full-Term Late Talkers mostra que fatores como histórico familiar, qualidade da fala dos pais, diversidade lexical no ambiente e habilidades cognitivas da criança têm relação com os resultados.
• Em termos de prevalência, estudos estimam que atrasos de fala e linguagem variam entre 3% e 16% em crianças em idade pré-escolar.

Esses achados sugerem que a intervenção precoce pode agregar benefícios significativos: quanto antes a criança for avaliada por um fonoaudiólogo e iniciar estímulos adequados, melhor será a trajetória de fala e linguagem.

  1. O papel da família e do ambiente na estimulação da fala

Uma das partes mais gratificantes do meu trabalho é orientar famílias para que se tornem “co-terapeutas” no dia a dia. A fala cresce no vínculo, no olhar, no afeto, no brincar. Aqui vão algumas práticas validadas:
• Converse com a criança o máximo possível — descreva ações, rotinas, objetos: “Agora vamos escovar os dentes”, “Olha o passarinho voando lá fora”. Essa modelagem verbal aumenta o input e amplia o estoque de linguagem.
• Leiam juntos todos os dias — mesmo que poucas páginas. A criança aprende pelo som, pela repetição e pelo prazer da interação.
• Dê espaço para a criança responder — não complete as falas dela nem antecipe tudo. Quando você espera, ela se sente parte da troca.
• Diminua o uso de telas ou garanta que, se houver, seja acompanhado por um adulto que dialogue sobre o que aparece. O simples “passar tempo vendo” não substitui a interação viva.
• Crie situações de brincadeira que favoreçam o uso da fala — brinquedos simples, faz de conta, cantar juntos, brincar com livros de figuras.
• Monitore o ambiente auditivo — se há muitos ruídos, pouco diálogo em casa ou histórico de infecções de ouvido, vale observar a audição da criança.
• Estimule o gesto também — apontar, dar tchau, imitar animais ou sons; tudo isso antecede a palavra e prepara o terreno para a fala.

Aqui na Clínica NeuroVoz, reforçamos: estimular não é cobrar. É abrir possibilidades, elogiar cada tentativa e acolher cada som, gesto e olhar.

Quando o filho ou filha “ainda não fala”, não estamos diante de um rótulo, mas de um convite para olhar com atenção, carinho e ação. A fonoaudiologia — e todo o cuidado integrado que valorizamos na Clínica NeuroVoz — não trata apenas a “fala” como um objetivo isolado, mas a “pessoa que se comunica, que se conecta, que vive em vínculo”.

Como fonoaudióloga, sempre digo: o silêncio não é vazio — ele é promessa. Promessa de que algo novo vai nascer. Cabe a nós, enquanto cuidadores e profissionais, cultivar esse solo com paciência, estímulo, escuta e amor.

E aí, gostaram da nossa conversa?
Beijinhos e até a próxima!

Sara Jacob

Sara Jacob

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