A fonoaudiologia é um oceano de possibilidades. Quando escolhi esse caminho, sabia que queria mais do que atendimento clínico — eu queria transformar vidas. No fim da graduação, tomei a decisão de apresentar meu TCC sobre um tema pouco abordado, mas que já morava no meu coração: a fissura labiopalatina.
Com a orientação sensível da minha professora e mentora, Maria Célia, e muita dedicação, mergulhei nesse universo. E o mais bonito é que o tema não estava só no papel: na minha agenda de atendimentos, já acompanhava crianças com fissura. Uma delas, ainda bebê, foi submetida à sua primeira cirurgia corretiva — e tive o privilégio de acompanhar de perto desde a anamnese, o pré e o pós-operatório, orientando sua família com carinho e responsabilidade. Foi um daqueles encontros que marcam para sempre.
A fissura labiopalatina é uma condição congênita que acontece nas primeiras semanas de gestação e pode afetar o lábio, o palato ou ambos. Ainda hoje, muita gente acredita que é apenas uma questão estética, mas os desafios vão muito além do que os olhos enxergam.
Logo ao nascer, a alimentação já se torna um desafio. A abertura no “céu da boca” dificulta a sucção e aumenta o risco de engasgos. A orientação fonoaudiológica nesse momento é crucial: ajudamos a família com posições adequadas, utensílios adaptados e, principalmente, apoio emocional.
Com o tempo, surgem as questões de fala. Muitas crianças com fissura apresentam escape de ar pelo nariz ao falar, com uma voz anasalada, meio fanhosa, com a sensação de “abafada”, além de trocas articulatórias e sons compensatórios — e é aqui que o trabalho da fonoaudiologia brilha. Com paciência e escuta, reabilitamos não só a fala de forma geral, mas também a confiança dessas crianças.
Outro ponto delicado é a audição. É comum que essas crianças tenham otites de repetição e perdas auditivas, o que impacta diretamente o desenvolvimento da linguagem. Por isso, o tratamento da fissura labiopalatina deve ser visto como um processo contínuo. A criança precisa reaprender sua forma de falar, se adaptar à nova anatomia, descobrir sua nova voz. E é uma alegria sem tamanho ver cada avanço — cada som conquistado é uma vitória de todos nós.
A fissura labiopalatina nos ensina que cuidar da fala é também cuidar da alma. O trabalho da fonoaudióloga vai muito além da reabilitação — é acolhimento, é presença, é construção de identidade.
Porque, no fim das contas, dar voz a uma criança é também devolver a ela o direito de se expressar, de pertencer, de ser ouvida. E isso, pra mim, é uma das formas mais bonitas de amor.
E aí, gostaram da nossa conversa?
Beijinhos e até a próxima.