O gestor de fundos Vladimir Timerman afirmou nesta quarta-feira (18) à CPI do Crime Organizado que, por trás do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, existem outros nomes que realmente comandavam o banco, mantendo-se ocultos. Ele citou suspeitas envolvendo o empresário Nelson Tanure.
Segundo Timerman, Vorcaro era apenas “pau-mandado” dos verdadeiros donos. “O senhor Nelson Tanure é uma das cabeças, talvez o mais alto na hierarquia. Meu sentimento é que Vorcaro nem sabia o que acontecia, só foi colocado para ser a cara do banco e fazer as conexões políticas”, declarou.
Timerman criticou a demora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Polícia Federal e Banco Central em investigar as fraudes. Ele contou que fez denúncias desde 2019, preocupado com seus investimentos, mas que os inquéritos andam lentamente — a Polícia Federal só deflagrou operações em 2025.
“Minhas denúncias começaram em 2019 e foram até 2021. O inquérito na CVM demorou 473 dias para ser aberto, o da polícia não anda. Acho que todos falharam”, afirmou.
O gestor revelou ter sofrido mais de 30 ações criminais, ameaças de morte e pedidos de prisão em retaliação às suas denúncias.
Timerman explicou que os fraudadores inflavam artificialmente o patrimônio das instituições e transferiam esses recursos para envolvidos. Citou o exemplo do Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), cujos ativos foram superestimados antes da incorporação pelo Banco do Brasil em 2008.
“Eles elevavam os valores, criavam lucros artificiais. Esse dinheiro já era desviado antes de entrar no banco. Assim, o banco aparentava ser sólido, captava mais recursos para pagar dívidas antigas e continuar funcionando”, detalhou.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI, qualificou a rede de crimes como complexa e ressaltou o impacto real para muitos brasileiros, especialmente investidores que perderam mais que o limite de ressarcimento do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), de R$ 250 mil.
“Parece que não há vítimas, mas existem milhares, talvez milhões, espalhadas pelo país.”
Timerman ainda alertou que o impacto afetará os bancos tradicionais, que terão que aumentar gastos para recompor o FGC, dificultando empréstimos para o cidadão comum.
Durante a sessão, o ex-servidor do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza não compareceu para depor. A presença era inicialmente obrigatória, mas o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça tornou facultativo o comparecimento.
O presidente da CPI, senador Fabiano Contarato (PT-ES), lamentou a decisão e questionou: “Qual o sentido de uma comissão parlamentar de inquérito se não posso ouvir testemunhas, convocar investigados nem quebrar sigilos?”