O fim das férias e o retorno à rotina costumam trazer mais do que cansaço físico. Segundo a psiquiatra Bianca Bolonhezi, muitas pessoas vivenciam um quadro conhecido como fadiga emocional pós-férias, caracterizado por irritabilidade, dificuldade de concentração, sensação de esgotamento e queda de motivação — sintomas que podem se intensificar em períodos de grandes estímulos sociais, como o Carnaval.
“A transição entre momentos de descanso e exigência intensa de produtividade pode gerar sobrecarga emocional. O cérebro precisa de tempo para se reorganizar, e quando isso não acontece, o corpo e a mente passam a sinalizar”, explica a médica. Alterações no sono, ansiedade aumentada e sensação de vazio após períodos de euforia estão entre as queixas mais frequentes nesse momento.
Durante o Carnaval, esse cenário pode ser agravado pelo excesso de compromissos, privação de sono e, principalmente, pelo consumo abusivo de álcool. De acordo com os dados mais recentes do Ministério da Saúde, por meio do sistema Vigitel, 20,8% dos adultos brasileiros relataram consumo abusivo de álcool em 2023, índice que vem mostrando crescimento progressivo nos últimos anos e representa um fator de risco importante para a saúde mental, especialmente em contextos sociais como festas e celebrações.
“O álcool pode provocar uma falsa sensação de relaxamento, mas, do ponto de vista psiquiátrico, ele interfere diretamente nos neurotransmissores responsáveis pelo equilíbrio do humor”, alerta Bianca Bolonhezi. Após o efeito inicial, é comum observar piora da ansiedade, oscilações emocionais, irritabilidade e aumento da impulsividade. Em pessoas que já convivem com transtornos mentais, esses impactos tendem a ser ainda mais intensos.
Outro ponto de atenção durante a folia é a dificuldade em estabelecer limites emocionais e físicos. A pressão social para “aproveitar ao máximo” pode levar à ultrapassagem dos sinais do próprio corpo. “Respeitar o cansaço, intercalar momentos de descanso, dormir adequadamente e saber dizer não também fazem parte do cuidado com a saúde mental”, reforça a psiquiatra.
Para Bianca Bolonhezi, a saúde mental deve ser considerada antes, durante e após o Carnaval. Manter uma rotina mínima de sono, hidratação adequada, alimentação equilibrada e consumo consciente de álcool são atitudes simples, mas fundamentais para reduzir os impactos emocionais negativos desse período.
“Sentir-se emocionalmente esgotado após fases intensas não é fraqueza. É um sinal legítimo de que a mente precisa de atenção, escuta e, em alguns casos, acompanhamento profissional”, conclui a médica.