Embora sejam proibidos no Brasil, os cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes ou pods, ganharam fama especialmente entre o público jovem com a promessa de serem uma alternativa “mais segura” em relação ao cigarro tradicional. Sem a fumaça e o cheiro do tabaco, esses dispositivos vendem a ideia de que liberam apenas vapor d’água com sabor.
No entanto, por trás da aura moderna e inofensiva, pesquisas têm revelado que os cigarros eletrônicos são tão nocivos quanto o convencional e oferecem sérios riscos, em especial para a saúde bucal. Um estudo, realizado pelo InCor com mais de 400 usuários desses dispositivos, mostrou que os níveis de nicotina nesses indivíduos chegaram a ser até seis vezes superiores do que em fumantes tradicionais.
De acordo com a professora de Odontologia da UniSociesc, Isabela Maria Vasconcelos Silva, os principais perigos residem na composição dos cigarros eletrônicos. “Existe uma falta de informação entre os usuários de que esses dispositivos são apenas um vapor d'água saborizado. Mas, a verdade não é bem essa. Eles possuem inúmeros produtos químicos perigosos e conservantes que estão sendo inalados continuamente”, alerta a especialista.
Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) mostram que 15% da população brasileira já fez uso de algum produto com nicotina. O cigarro tradicional permanece sendo o mais utilizado (12,2%), mas os cigarros eletrônicos já foram consumidos por 5,3% da população. O estudo também mostra que 1,9% dos entrevistados faz uso combinado do cigarro tradicional e do eletrônico, o que representa maior risco de dependência e exposição simultânea a toxinas.
A pesquisa foi apresentada em junho e é uma parceria entre o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Outra informação que chama a atenção é o índice de adolescentes que já experimentaram algum produto com nicotina: 10,5% das meninas e 8,3% dos meninos, de 14 a 17 anos, relataram já ter experimentado. Entre eles, 78% disseram não ter encontrado dificuldades para adquirir os produtos, mesmo com a comercialização dos dispositivos eletrônicos proibida pela Anvisa desde 2009.
Substâncias nocivas para o organismo
Os vapes carregam uma série de substâncias químicas nocivas. A principal delas é a nicotina, que, além de gerar dependência (assim como no cigarro tradicional), provoca vasoconstrição, que é a redução do fluxo sanguíneo nos tecidos. “Esse efeito, quando atinge a gengiva, compromete a nutrição celular, tornando o tecido mais frágil e vulnerável a infecções e inflamações, cenário ideal para o desenvolvimento de doenças periodontais”, explica a professora.
Além da nicotina, o próprio vapor quente liberado pelo dispositivo causa desidratação da mucosa bucal. A saliva, que desempenha um papel fundamental na proteção contra o crescimento bacteriano, tem sua produção afetada, criando um ambiente propício para o desenvolvimento de cáries. “Se a gente tira esse fator protetor, a gente abre uma porta para as bactérias crescerem naturalmente, o que, por consequência, leva ao surgimento da cárie”, destaca Isabela.
Esse ressecamento já é uma realidade observada nos consultórios. “Se um paciente jovem, saudável, chega na cadeira odontológica e vemos a mucosa ressecada, isso já chama a atenção. Muitas vezes, ao perguntar se fumam, eles dizem que não, mas esquecem do cigarro eletrônico. Quando questionamos especificamente, a confirmação é imediata”, relata.
Sinais de alerta para o câncer bucal
Talvez um dos dados mais alarmantes da composição dos vapes seja a presença de agentes carcinogênicos. A professora da UniSociesc cita o formaldeído, comumente conhecido como formol, como um desses componentes do vapor. “O formol pode danificar o DNA das células da boca, aumentando o risco de desenvolvimento de câncer bucal”, adverte.
Embora o câncer de boca ainda seja mais associado ao cigarro tradicional devido à combustão, a presença de tais substâncias no vapor eletrônico acende um sinal de alerta para o mesmo risco a longo prazo.
Diante dos riscos, é crucial reconhecer os sintomas iniciais do câncer bucal. A doença pode se manifestar como uma ferida ou úlcera que não cicatriza em mais de 15 dias, mesmo que não cause dor. “Ou então pode aparecer como um caroço, um edema na face ou dentro da boca que também não se resolve nesse período. Qualquer alteração desse tipo precisa de uma avaliação urgente de um cirurgião-dentista”, orienta a professora.
O apelo final da especialista é por conscientização, especialmente para o público jovem, principal usuário desses dispositivos. “A saúde bucal é uma das primeiras vítimas do vício, e seus danos, que vão do desconforto ao risco de morte, são irreversíveis. A melhor estratégia, portanto, continua sendo a prevenção e a abstinência total”, reforça Isabela.
“Os estudos têm revelado que não existe uma diferença significativa nos efeitos colaterais quando comparamos o paciente que fuma o convencional e o que fuma o eletrônico. As alterações são bastante semelhantes”, afirma a especialista. Para reduzir riscos, a recomendação é clara: não usar cigarros eletrônicos e nem cigarros tradicionais. Além disso, manter consultas regulares com o dentista é essencial para identificar alterações precoces e evitar complicações graves.
Confira os 7 principais impactos do cigarro eletrônico na saúde bucal
1. Ressecamento da boca e redução da salivaO vapor do cigarro eletrônico contém substâncias que reduzem a produção de saliva. A saliva é essencial para proteger os dentes contra bactérias, ajudar na digestão e evitar mau hálito. A boca seca (xerostomia) aumenta o risco de cáries, gengivite e infecções.
2. Aumento do risco de cáries e erosão dentária O líquido do cigarro eletrônico pode conter sabores açucarados e ácidos, que favorecem a formação de cáries. Além disso, o vapor pode enfraquecer o esmalte dentário, tornando os dentes mais suscetíveis à erosão.
3. Inflamação e irritação da gengivaEstudos sugerem que o cigarro eletrônico pode causar inflamação das gengivas, tornando-as mais sensíveis e propensas a doenças gengivais. Pode levar à gengivite (sangramento e inchaço) e evoluir para periodontite, que pode resultar em perda dentária.
4. Aumento do risco de infecções na bocaO uso contínuo do cigarro eletrônico pode alterar o equilíbrio da microbiota bucal, favorecendo o crescimento de bactérias prejudiciais. Isso pode aumentar a incidência de infecções como candidíase oral (sapinho) e aftas frequentes.
5. Mau hálito (halitose) O ressecamento da boca e o acúmulo de toxinas liberadas pelo vapor podem contribuir para o mau hálito persistente.
6. Risco potencial de câncer bucalEmbora ainda estejam sendo conduzidos estudos, alguns componentes dos líquidos vaporizados são substâncias potencialmente cancerígenas. O uso prolongado pode aumentar o risco de câncer de boca, língua e garganta.
7. Impacto na cicatrização de tecidos bucais A nicotina presente nos cigarros eletrônicos pode dificultar a cicatrização de feridas na boca, o que pode ser problemático após extrações dentárias ou procedimentos cirúrgicos.
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