O cancelamento da Rússia e a economia global

Por: Foto: Divulgação
Compartilhe

Em tempos recentes se tornou comum o termo cultura de cancelamento. Nesse caso, e isso envolve principalmente pessoas com perfil público, se o indivíduo fala ou faz algo que desagrade o público em geral, ele sofre pressões para ter seu emprego, contratos publicitários e mesmo redes sociais “canceladas”. Os boicotes e pressões públicas tornaram difícil a vida de muitos famosos pelo mundo, mas com o conflito entre Rússia e Ucrânia ganharam uma escala não antes imaginada: temos um país inteiro economicamente “cancelado”! Poucas vezes se viu um movimento de sanções tão intenso como o que tem ocorrido na Rússia e, longe de tentar explicar o quebra cabeça geopolítico e histórico no leste europeu, o presente texto busca trazer alguns insights de como esse processo trará consequências na economia global.

O fato básico é que as grandes economias ocidentais resolveram entrar na guerra, mas não no campo de batalha tradicional e sim no campo econômico. O isolamento russo tem como objetivo criar uma frente interna, com a população russa (que deve ter sua condição de vida piorada) pressionando pelo fim do conflito. A saída de empresas do país foi expressiva, desde gigantes do petróleo até bens de consumo e serviços (McDonalds, Apple, Microsoft, Coca-Cola, Starbucks, entre muitos outros).

As sanções devem limitar e dificultar muito o acesso à produtos russos pelo resto do mundo e a produtos do resto do mundo na Rússia. O fato provém não apenas das restrições diretas aos produtos, mas também pelo isolamento da Rússia do fluxo de capitais internacionais. O simples fato de pagar por uma importação deve se tornar cada vez mais difícil para os russos, já que não possuem acesso ao sistema internacional que comunica as instituições financeiras (Swift) e possui restrições ao acesso a moedas estrangeiras, notadamente o dólar. Nesse caso, vale a pena destacar que a Rússia não é uma economia insignificante. Em 2020 ocupava o 11º lugar entre as maiores economias do mundo (próximo ao Brasil, na faixa de 2% do PIB global) e, em valor, estava entre os 20 países que mais exportam no planeta.

Mais do que o valor total do PIB e das exportações podem sugerir, alguns produtos importantíssimos para as economias mundiais tem sua origem em grande parte na Rússia. E, bem como o Brasil, as commodities, sejam elas energéticas, alimentícias ou minerais, são o motor da economia russa. No campo energético, os russos são o terceiro maior produtor de petróleo do mundo e o gás natural do país abastece boa parte das maiores economias europeias. Nos alimentos, a Rússia é a maior exportadora de trigo do mundo. Nos minerais, o país é o maior exportador de níquel e um produtor relevante de alumínio. Além disso, estão entre os maiores exportadores de fertilizantes do planeta. Obviamente, ao cortar essa fonte de oferta, as sanções à Rússia vão elevar os preços internacionais e gerar inflação para todos.

Em 2019, 2,16% das importações brasileiras vieram da Rússia, o que colocava o país como nosso décimo parceiro nesse quesito. Em termos de exportações o valor era um tanto mais modesto, sendo o trigésimo terceiro maior parceiro e ocupando 0,72% do nosso valor exportado. No entanto, alguns produtos possuem peso grande nesses valores. Se tomarmos Santa Catarina como referência, mais da metade das importações que fizemos da Rússia em 2019 eram de fertilizantes agrícolas, níquel e alumínio. Nas exportações, ainda para Santa Catarina, praticamente metade foram de aves, tabaco e gelatinas. Ou seja, alguns setores tendem a sofrer mais que outros com o conflito.

Em termos de impactos globais, devemos ver um redesenho das parcerias comerciais. A China, que já era o principal destino das exportações e importações russas deve ganhar maior escala ainda. Tornou-se o caminho mais óbvio para driblar as sanções. Os países da Zona do Euro terão que realinhar suas fontes energéticas. Com praticamente um mês de guerra, a Europa continuava abastecida pelo gás natural russo, mas as pressões para interromper a fonte tornam-se cada vez maiores. Em relação aos produtos em que a Rússia possui oferta relevante, os países terão que buscar outras origens e provavelmente pagar maiores preços.

Após a ruptura nas cadeias de abastecimento global com a pandemia, o ano de 2022 parecia ser o ano de ajustes. As pressões sobre custos deveriam amenizar e as políticas monetárias restritivas deveriam dar conta de reduzir a inflação acelerada que se viu entre 2020 e 2021. No entanto, a guerra entre Rússia e Ucrânia torna esse cenário mais difícil. A inflação deve seguir pressionada e o esforço em termos de juros deve ser maior mundo afora. Para não dizer que o cenário todo é ruim para o Brasil, os preços das commodities em alta favorecem nossa atividade econômica. Somos grandes produtores ou exportadores de soja, milho, carnes, minerais e combustíveis. Nesse ponto, apesar da inflação e dos juros maiores, devemos ter um pouco mais de crescimento no PIB esse ano do que projetado inicialmente. Vimos um fluxo bastante expressivo de investidores estrangeiros trazendo dólares para o Brasil nesse ano. A leitura que se tem é que com preços altos de commodities nos beneficiamos. Sem dúvida o ano iniciou desafiador e qualquer previsão passa por um conflito que envolve um país que historicamente sempre se mostrou um tanto imprevisível.

Veja também

Coluna do Moa desta quarta-feira
FAISCA Por favor gente, não convide para sentar na mesma os vereadores Jeferson Cardoso e...
Coluna do Moa desta terça-feira
Vamos falar sobre vidros?
São tantas as opções que muitas vezes o cliente pode não saber o que fazer no momento da escolha.
Asfaltamento da Rua 13 de Maio deve continuar em breve
Empresa responsável pelo novo trecho já foi conhecida por meio de licitação.
Central de Imunização do Centro fecha mais cedo amanhã
O motivo é a capacitação de rotina da equipe do posto.