No longo prazo alguém estará vivo

Por: Insight Econômico - Por Cristian Rafael Pelizza
Foto: Divulgação
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Ao longo da história econômica é comum que algumas boas ideias tenham sido mal utilizadas e mais comum ainda que más ideias tenham sido pessimamente utilizadas. “A longo prazo, todos estaremos mortos”. A célebre frase do economista britânico, John Maynard Keynes tinha como objetivo refutar a noção de que a economia teria um ajuste natural e, no longo prazo, as crises se solucionariam de maneira automática, sem necessidade de intervenções. A noção subjetiva de longo prazo que permeava a teoria econômica anterior a Keynes acabou sendo posta em xeque durante a grande crise de 1929, quando o tempo passava, o ajuste automático não acontecia e as filas de desempregados cresciam. Ou seja, enquanto o longo prazo não viesse, algo precisava ser feito e toda cartilha de políticas de estabilização econômica em períodos de crise começou a ser posta em prática: políticas fiscais e monetárias expansionistas, com aumento no gasto público e diminuição de juros, além de auxílios diretos aos desempregados e grupos mais expostos. Qualquer semelhança com as ações pós pandemia não é mera coincidência.

A ideia das políticas macroeconômicas de estabilização se mostrou uma ferramenta fundamental ao longo do tempo, disso não há dúvida. O grande problema que se gerou em alguns casos, e o Brasil é um forte exemplo, foi o de focar excessivamente no curto prazo. O longo prazo pode estar distante ou ser uma ideia subjetiva, mas existe. Enquanto no curto prazo o foco é o desemprego e a inflação, no longo prazo o foco é o crescimento. E crescimento significa maior riqueza média para a população. Uma das grandes questões que a economia busca explicar é o porquê de alguns países, entre os quais podemos citar os situados no Ocidente Europeu e os Estados Unidos, estarem crescendo há mais de um século, alguns alternarem ciclos de crescimento e queda (como o Brasil) e alguns simplesmente nunca terem crescido satisfatoriamente (como na África Subsaariana). A resposta básica está na produtividade.

A literatura econômica mostra diversos aspectos que podem elevar a produtividade da mão de obra ao longo do tempo. Nos trabalhos iniciais do Nobel de economia, Robert Solow, por exemplo, o foco estava na acumulação de capital por trabalhador. Ou seja, se quatro pessoas operassem apenas uma máquina, se aumentássemos o número de máquinas para, digamos, quatro, a produtividade de cada um aumentaria junto. O problema é que se continuássemos aumentando o número de máquinas para, digamos, quarenta, teríamos dez máquinas por trabalhador, o que já não agregaria muito em termos de produção pela simples ausência de braços para operar as máquinas. Portanto, existiriam limites para o crescimento de um país. A explicação do estoque de capital por trabalhador como motor do crescimento até pode funcionar para países em estágios iniciais de desenvolvimento, mas não é um argumento completo. Alguns países pobres que se apegaram a essa ideia construíram muitas pontes para lugar nenhum e não cresceram. E alguns países com estoque elevado de capital continuam crescendo 150 anos depois de iniciarem seu ciclo de expansão.  

Explicações melhores vieram uma geração depois. O enfoque passou a ser capital humano e inovação. Pelo primeiro lado, investimentos em educação e acúmulo de capital humano tornam as pessoas mais produtivas independente do estoque de capital. O segundo lado mostra que países inovadores geram uma gama de produtos e processos que fazem com que o mesmo número de trabalhadores possa produzir mais. Ou seja, países com alto crescimento possuem populações educadas (formal e informalmente), empreendedoras e inovadoras. O Brasil passou por algo chamado de armadilha da renda média. Fizemos a primeira transição de desenvolvimento, com aumento na urbanização, infraestrutura e expansão inicial da produtividade. No entanto, nesse ponto estacionamos e não conseguimos chegar ao patamar das economias mais desenvolvidas. Comparando com a Coréia do Sul, por exemplo, os dois países saíram de rendas muito baixas e fizeram uma evolução inicial parecida. Entretanto, enquanto a Coréia continuou a crescer o Brasil ficou gradativamente para trás.

A pergunta que não quer calar é: como sair dessa armadilha? Basicamente através de reformas estruturais que criem as instituições e bases para que a população possa se desenvolver. Investimento em educação, melhoria no ambiente de negócios e incentivos à inovação e empreendedorismo são cruciais. O que ocorre é que muitos desses elementos demoram a maturar. O fato de hoje enfrentarmos o desafio de fazer essas reformas significa que as gerações anteriores não as fizeram. Somos o longo prazo de alguém. Erros e omissões passadas acabam tendo impacto futuro e no longo prazo alguém estará vivo para enfrentar esses problemas. Portanto, a pauta de longo prazo no Brasil, que envolve todas as reformas estruturais, é tão urgente quanto qualquer ajuste de curto prazo. Ou carregaremos o dogma de ser o país do futuro e continuar assim para sempre.

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