"Hoje sou a soma de tudo que passei"

Por: Priscilla Millnitz Pereira Foto: Jéssica Kopsch
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Quem conhece somente o empresário Alberto Correia não imagina o caminho que ele percorreu até se tornar um homem de sucesso reconhecido. Sempre bem humorado e aficionado por uma boa conversa, nem de longe lembra o garoto pobre nascido em uma família de 17 irmãos que viu a infância ser roubada para ajudar no sustento da família. E não pense que o passado deixou um gosto amargo. Correia fez das dificuldades sua força, se apoiou na fé e não teve medo de ir em busca dos seus sonhos, não faltando coragem e resiliência um dia sequer de sua vida.

Nascido em Blumenau no dia oito de dezembro de 1940, Alberto tem poucas memórias de sua primeira infância. Lembra-se do pai, que perdeu aos dois anos de idade, e depois remonta sua trajetória a partir dos sete anos, quando já trocava a bola de futebol por ferramentas e ia ao lado dos irmãos trabalhar na agricultura. Os tempos não eram fáceis. Além de lidar com a escassez de recursos, Correia tinha uma relação complicada com o padrasto, de quem relata algumas surras e constrangimentos. A situação acabou culminando com a saída do garoto de casa. Inicialmente mudou-se para Brusque, onde viveu com uma irmã e, meses depois, para Curitiba, também sob a tutela de uma irmã.

Alberto não se orgulha do feito, mas admite que frequentou a escola somente por poucos meses. “Esse era um luxo que eu não podia ter”, desabafa. Se aos 10 anos de idade veio o primeiro emprego “formal”, os bicos começaram muito cedo. Fato é que o tempo foi passando e as dificuldades seguiam lado a lado dos Correia, de modo que restou a ele cursar a “faculdade da vida”, como gosta de dizer. Forçado a encarar uma realidade dura desde muito cedo, Alberto amadureceu rápido e aprendeu muito. Abraçava cada oportunidade que lhe era oferecida por mais simples que fosse e se dedicava a ponto de não sobrar tempo para lamentos. “Se não era possível fazer o que eu gostava, aprendi a gostar do que fazia”, ensina.

E assim seguiram experiências valorosas para um menino. Ainda na infância trabalhou em uma frutaria, em padarias da capital paranaense e foi engraxate nas horas vagas. Ainda que a família vivesse em condições precárias, ele jura que não ligava para o dinheiro quando pequeno. Era apenas uma criança querendo se aventurar e com plena certeza de que uma hora ou outra alcançaria o sucesso. “Posso garantir que sempre fui muito feliz na minha simplicidade”, faz questão de destacar. Se faltavam recursos, sobrava boa educação e caráter. Até hoje o empresário é daquelas pessoas em que se pode confiar na palavra. Contratos são sempre uma segurança, é claro, mas ele se diverte falando que é do tempo do “fio do bigode”.

De origem humilde, Alberto Correia precisou batalhar muito para chegar onde está.

 

Fé e uma boa dose de sorte

Ainda na infância Alberto Correia viveu uma situação que lhe marcou muito e que, nas palavras dele, era a certeza de que conquistaria tudo aquilo que sempre almejou. “Era mais um dia de trabalho quando vi uma freira derrubar sem querer uma nota de dinheiro no chão. Corri atrás dela para devolver e ela me disse palavras lindas. Naquele momento eu soube que estava no caminho correto”, emociona-se. Esse caminho era o da honestidade e lhe valeu alguns problemas, pois quando começou a se destacar com a indústria química não faltaram pessoas mal intencionadas tentando prejudicá-lo.

Antes disso, porém, havia um longo caminho de pedras para testar a fé e a correção de Correia. Nada, porém, que o abalasse muito. Seu currículo inclui trabalhos no cinema, na televisão e no circo. Além de tudo um artista! Também passou por hotéis, foi chamado para atuar no futebol profissional e atuou na indústria, mas foi no comércio que sentiu o gostinho do sucesso pela primeira vez. “Eu tinha voltado para Santa Catarina e já estava casado com a minha primeira esposa quando passamos a fazer alguns pastéis para vender. A receita fez sucesso, acabou surgindo a oportunidade de comprar um bar e uma venda e tudo ia muito bem”, recorda.

O grande coração de Correia, no entanto, foi responsável pelo fracasso do negócio. “Eu vendia muito fiado e as pessoas simplesmente não voltavam para me pagar. Acabei falindo”, lamenta. A experiência inglória de certa forma o traumatizou e por um bom tempo teve medo de apostar em um novo negócio. Mas, destacado vendedor que acabou se mostrando, foi impelido novamente a arriscar.

O começa na indústria química

Alberto Correia ainda trabalhava no Canal 12, em Curitiba, quando abriu uma empresa próxima nessa área. Como trabalhava somente meio período na televisão e desde sempre adorava a ideia de ter dois empregos, ele se ofereceu para trabalhar como motorista. De boa conversa, foi cogitada sua transferência para a área de vendas, fato que acabou não se concretizando. Foi mais ou menos nessa época que a sorte bateu na sua porta novamente. A sorte e a coincidência, já que um amigo veio propor negócio justamente para abrir uma indústria química, mais uma área que agora ele também dominava.

“De início eu fiquei receoso, mas havia um investidor e eu não tinha muito a perder. Começamos a vender sem ter o produto, um galpão... a empresa existia somente nas nossas cabeças, é bem verdade. Mesmo assim vendi R$ 60 mil cruzeiros no primeiro mês e tratei logo de correr atrás de tudo para fazer as coisas acontecerem”, conta o sempre proativo Correia. Foi ele quem conseguiu o espaço, maquinários, enfim, viabilizou toda a estrutura, numa espécie de treinamento para aquela que viria a ser a Dipil.

A experiência durou certo tempo, mas terminou com a saída de Correia assim que ele passou a perceber que o patrão e investidor estava crescendo muito sem levar com ele as pessoas que o ajudaram a estar no topo. Não achando justo, saiu do negócio sem medo, como já havia feito inúmeras vezes, mas agora pensando em investir também nesse mesmo ramo.

Assim surgia a Correia Representações e Indústria, ainda em Curitiba. Nessa época o trabalho se resumia a entubar anilina, mas não demorou muito para que passasse a comprar e revender produtos químicos. Na mesma velocidade, despertou a ira da concorrência que, se aproveitando do rigor da fiscalização nessa área, fazia de tudo para impedir que ele continuasse trabalhando. Correia perdeu as contas de quantas vezes sofreu esse tipo de represália e pensou em fechar a empresa, mas isso iria totalmente contra a atitude de força que desde cedo demonstrou diante das dificuldades e soube passar por todas elas.

Inaugurada em 15 de setembro de 1979, a Dipil deu seu ponta pé inicial comercializando inseticidas para pulgas e mosquitos, passou por crises econômicas e outras provocadas por pessoas de má índole, se reinventou, modernizou suas estruturas, cresceu e hoje é a maior indústria nacional de produtos domissanitários – que são aqueles inseticidas comercializados em mercados e agropecuárias e que oferecem soluções para se livrar de insetos domésticos, como baratas, pulgas, roedores e outras pragas.

A produção própria teve início em 1984 e, oito anos depois, a empresa se estabeleceu de vez na cidade de Massaranduba. A estrutura era modesta. Um galpão e cerca de 15 funcionários. Muito pouco comparado ao que vemos hoje. Com 42 anos de história, a indústria conta atualmente com cinco galpões de produção, toda a estrutura administrativa e 4.600 metros quadrados de área construída. O processo de produção foi automatizado e hoje o contato dos funcionários com os produtos é mínimo, o que diminui o risco de acidentes e já deu a empresa o recorde de 653 dias sem nenhuma intercorrência.

Como uma família: Correia cuida do bem estar dos colaboradores e gosta de estar próximo, chegando cedo e almoçando no refeitório ao lado de todos eles.

 

Segurança e bem estar de todos é prioridade na Dipil

Correia também investiu em uma estrutura moderna para o galpão onde está armazenada a matéria prima inflamável. O sistema exclusivo existe, para se ter ideia, somente ali e na Petrobrás no Brasil. “Essa é uma construção de última geração que conta com ventiladores autoacionados, piso antiestático – que não gera faísca –, telhado termoacústico, capaz de reduzir a temperatura interna em até 14 graus centígrados, entre outras tecnologias trazidas do exterior”, detalha. Tudo isso é para evitar acidentes e ele destaca ainda que, caso ocorra uma fatalidade, existe um gerador de espuma que cobre todo o galpão em menos de três minutos, abafando as chamas e retendo a fumaça. Além disso, as paredes do galpão são capazes de segurar o fogo a uma temperatura de até 200 graus sem que as paredes venham abaixo.

A preocupação não se limita a isso. A Dipil conta com médico e dentista contratados na sede da empresa, uma brigada de incêndio preparada para atuar em qualquer situação e o carinho e humanidade de Correia, tido por todos como um paizão. Os colaboradores são unânimes ao afirmar que Correia trabalha com prazer. Chega cedo todos os dias, trabalha incansavelmente e faz questão de almoçar no refeitório ao lado de toda a equipe.

O cuidado se reflete nos frutos que vem colhendo dia após dia. Hoje a empresa conta com 125 colaboradores diretos e 41 empresas de representação comercial espalhadas por todo o Brasil. Exporta seu portfólio com mais de cem produtos para países do Mercosul e conta com a própria frota de caminhões.

E os avanços não param. Recentemente a Dipil lançou um produto que promete eliminar um problema bastante comum na região: o maruim. Trata-se do Neem Garden um inseticida e larvicida que promete eliminar o ciclo do mosquito. O produto não é venenoso e deve ser colocado onde tem água, como córregos e riachos, que é onde comumente essas larvas se desenvolvem até se transformarem nos temidos mosquitos. A ideia já é sucesso, assim como o Grão Verde, produzido para eliminar as formigas cortadeiras. Este último, segundo Alberto, é o carro chefe da empresa.

Vida contada em livro

Toda a epopeia de Alberto Correia chamou a atenção de Albérico Agripa, um escritor local que se propôs a mergulhar no fundo dessas memórias e contar em “Uma História de Sucesso” como um homem simples que não teve a chance de frequentar a escola e por vezes não teve o que comer nem onde dormir se tornou um mega empresário. O romance foi lançado no ano de 2016 e representa mais uma realização para Alberto, que sempre manifestou o desejo de deixar esse legado.

Na obra, que conta em detalhes histórias que marcaram a sua vida, estão projetos que inclusive já foram concretizados dentro da empresa, mostrando o quão dinâmico o personagem principal é e continuará sendo. O livro foi lançado pela editora Madre Pérola e é uma excelente leitura para os jovens atuais, que ainda estão em busca de seus sonhos. E para os nem tão jovens, que se frustram por ainda não terem chegado onde desejam.

Vale a leitura, sem sombra de dúvidas.

Auto de Natal e Copa Dipil são duas iniciativas voltadas para a comunidade que contam com o apoio/realização de Alberto Correia.

Devolvendo parte para a sociedade

Já realizado e com uma vida estável, Alberto Correia passou a buscar maneiras de retribuir para a comunidade tudo aquilo que conquistou. Uma dessas maneiras foi criando o Auto de Natal, um evento que inclui apresentações culturais, queima de fogos, decoração temática e a tradicional chegada do Papai Noel anualmente na Praça Maria Correia, localizada ao lado da empresa e cujo nome homenageia a matriarca da família de Alberto.

“Eu sempre gostei do Natal, mas minha infância foi muito pobre e eu não podia aproveitar a data com todas as alegrias que uma criança deveria ter. Hoje proporciono tudo isso gratuitamente para a comunidade de Massaranduba e região”, afirma. A iniciativa já entrou para o calendário oficial da cidade e ocorre desde 2012.

Outra contribuição importante de Alberto trata-se da Copa Dipil, que incentiva crianças e adolescentes a praticarem esporte através do futsal. A competição é uma parceira do empresário com a Secretaria de Esportes de Massaranduba que já mobilizou mais de 1.200 jogadores e vem crescendo ano a ano, considerado hoje, inclusive, o maior evento de futsal menor de Santa Catarina.

Filantropo, Correia também distribui cestas básicas e brinquedos para a comunidade carente e oferece ajudas pontuais para famílias que eventualmente estejam passando por um período complicado. Também é um entusiasta de corporações militares, como a polícia e o corpo de bombeiros, a quem sempre ajuda; e carrega o título de Cidadão Honorário de Massaranduba.

Nem todo esse reconhecimento, porém, tira os pés de Correia do chão. O empresário segue mantendo-se fiel a tudo aquilo em que acredita, não fala em aposentadoria e tem uma visão otimista da vida, de quem conseguiu vencer todas as dificuldades. “As tristezas nos ensinam e o aprendizado me deixa feliz”, resume.

 

 

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