Como despertar um dragão

Por: Insight Econômico - Por Cristian Rafael Pelizza
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Durante os já longínquos anos 80 e início dos anos 90, antes do plano real, o Brasil conviveu com um processo inflacionário de grandes proporções. Antes de mais nada, a inflação é definida como um aumento contínuo e generalizado nos preços dos bens e serviços, ou o equivalente, a uma redução no poder de compra das pessoas. Nesse período, usualmente se chamava a inflação de o dragão, que devorava o poder de compra dos consumidores. Para se ter uma ideia, no nosso ano recorde, 1993, a inflação bateu incríveis 2.477,14%, o que significa em termos práticos, que se você comprasse um cafezinho por 2 reais no primeiro dia do ano acabaria pagando R$ 56,88 no último dia pelo mesmo cafezinho. A partir de 1994, com o plano real o dragão inflacionário foi posto para dormir, se restringindo a algum ou outro breve despertar.

A inflação voltou a ser pauta do noticiário econômico nos últimos meses e a nível global. No Brasil, atingiu mais de 8% no acumulado de 12 meses em maio, o que, embora distante do nosso recorde, é um valor acima do que o governo enxerga como meta, que hoje possui um centro em 3,75% e um teto em 5,25%. É muito pouco provável que a gente volte a ter uma inflação de 3 ou 4 dígitos em breve, para isso a economia teria que estar em frangalhos, mas também não é impossível. Conduções desastradas na política econômica podem levar a processos de hiperinflação, que o digam nossos vizinhos na Argentina e na Venezuela.

Embora o dragão da inflação não tenha acordado cuspindo fogo e destroçando nosso poder de compra, é inegável que ele já está se remexendo na cama. Mas afinal, o que fez o dragão despertar? Em geral, a literatura econômica aponta três grandes causas para o processo inflacionário: a demanda, os custos e as expectativas. A inflação de demanda decorre essencialmente de um aumento no apetite por consumo por parte dos consumidores e está diretamente ligada à quantidade de dinheiro ou liquidez disponível na economia. A inflação de custos decorre, em geral, de aumentos nos preços de insumos essenciais à produção (petróleo, por exemplo) que encarecem toda cadeia produtiva. Por fim a inflação gerada pelas expectativas ocorre quando os agentes econômicos antecipam aumentos nos níveis de preços o que gera um processo conhecido como inércia inflacionária (sim, aquela mesma inércia das leis de Newton que diz que os corpos tendem a se manter em repouso ou em movimento, ou nesse caso, os preços).

Então, o que está gerando a inflação hoje no Brasil e em outros países, em especial, nos Estados Unidos? A resposta é todos os fatores apresentados. Inicialmente tivemos com a paralização das atividades econômicas em março de 2020 um desarranjo completo nas cadeias produtivas, o que elevou o custo das principais commodities a nível global, ou seja, inflação de custos. Em segundo lugar, como alternativa de combate a crise e no momento inegavelmente necessária, os bancos centrais, incluindo o nosso, derramaram liquidez na economia como nunca, com taxas de juros baixíssimas (mesmo negativas em países da Zona do Euro e no Japão) o que certamente tem impacto sobre a demanda. Por fim, as expectativas dos agentes já vêm se adequando à um cenário de níveis de preços no mínimo ligeiramente mais altos.

A inflação causa muitos impactos negativos no sistema econômico, em particular sobre a distribuição de renda. E para botar o dragão para dormir novamente o remédio mais comum (Rivotril para dragões inflacionários) são aumentos nas taxas de juros, enxugando a liquidez e realinhando as expectativas, embora a questão dos custos seja um pouco mais delicada. Nesse sentido, o Banco Central brasileiro vem elevando a taxas Selic, que no dia 16/06 foi fixada em 4,25% tendo chegado à um mínimo histórico de 2% ao longo de 2020 e, até mais importante, sinalizando a cada reunião que o processo segue até que tenhamos um cenário de preços mais estáveis. Nos Estados Unidos, essa decisão vem sendo um pouco mais complexa, já que o FED (banco central americano) optou por manter a injeção de liquidez e a taxa básica de juros em até 0,25% ao ano, argumentando que a recuperação econômica ainda não está completa e que a pressão sobre os preços deriva muito do custo de bens com comportamento cíclico como energia e commodities. No entanto, na última reunião já sinalizaram que podem alterar a opção por uma política mais folgada (dovish, em economês) para um aperto de liquidez (hawkish, também em economês).

Em resumo, os próximos meses devem ser de altas nos juros no Brasil e ainda alguma pressão inflacionária. Nos países desenvolvidos devemos ver cada vez mais sinais de uma mudança na política monetária rumo a uma situação de controle de da inflação. Salvo um desastre em termos de conduções de políticas econômicas, o processo não nos levará a uma situação aos moldes da Argentina ou Venezuela, com inflação de mais de 2 dígitos. No entanto, não é sensato acreditar que, apesar das experiências desastradas do passado, dessa vez os excessos de liquidez não causarão nenhum dano no poder de compra. Citando a frase clássica que serviu de inspiração para o título do famoso livro dos economistas Kenneth Rogoff e Carmen Reinhardt: “Mais Dinheiro já se perdeu com essas quatro palavras do que sob a mira de qualquer arma. Essas palavras são “desta vez é diferente””. Confiamos que os Bancos Centrais pelo mundo afora não cairão nessa armadilha.

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