“Somos o Estado com a maior cobertura de rede básica no Brasil”

Atual Secretário da Saúde, Vicente Caropreso, apresenta um raio X completo do setor em Santa Catarina

9 min para ler 15 mar, 17

Nascido em Blumenau em 1º de setembro de 1956, filho de Estella Maria e João Caropreso, Vicente Augusto Caropreso é médico neurologista há 33 anos. É casado com Sally Caropreso, pai de Meggie e Luísa Caropreso.

Cursou os primeiros anos de estudo na Escola Primária Barão do Rio Branco, e o ginásio e científico no Colégio Franciscano Santo Antônio, ambos em Blumenau. Formou-se em Medicina na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis em 1979, e fez sua Residência Médica em Neurologia no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná. Serviu como Tenente-médico no 23º Batalhão de Infantaria de Blumenau. Mudou-se para Jaraguá do Sul em 1984, onde reside e exerce sua profissão, sendo um líder comunitário conhecido, respeitado e benquisto. Desde 1984, Dr. Vicente trabalha em seu consultório médico, em hospitais e também como médico voluntário na Apae de Jaraguá do Sul. Sempre que possível Vicente viaja para atualizar seus conhecimentos profissionais, já tendo participado de vários congressos médicos no Brasil e no exterior. Tem paixão por línguas estrangeiras e estudou italiano, alemão, espanhol e inglês.

Entre os anos de 1997 e 1999 atuou como vereador de Jaraguá do Sul. Foi Deputado Federal por Santa Catarina de 1999 a 2003 e em 2014 foi eleito Deputado Estadual. Como deputado foi Presidente da Comissão de Proteção dos Direitos da Criança e do Adolescente e Vice-Presidente da Comissão de Saúde, também foi membro da Comissão de Prevenção e Combate às Drogas e da Comissão de Proteção Civil. Em 16 de janeiro de 2017 assumiu o cargo de Secretário de Estado da Saúde.

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Revista Nossa: Quais os principais desafios frente à Secretaria da Saúde e o que você pretende priorizar nessa gestão?
Vicente Caropreso: Melhorar a imagem atual da Secretaria Estadual de Saúde (SES), tornando-a uma instituição forte e respeitada, adequando-a ao momento que vivemos de escassez de recursos através de uma profunda mudança na maneira de administrar a coisa pública, profissionalizando os processos, fazendo gestão em todos os sentidos e exigindo do funcionalismo o melhor de si.

RN: Como ficou a equipe que irá trabalhar ao seu lado na secretaria? Houve uma reestruturação muito grande?
Vicente: Fizemos uma profunda modificação na estrutura e modo de pensar, introduzindo, por exemplo, um secretário adjunto apenas para fazer gestão 24 horas por dia. Faremos revisão de contratos com os principais fornecedores e estamos fazendo ajustes na secretaria desde o primeiro dia no sentido de economizar ao máximo através de uma rígida postura de controle interno, revendo gasto e rotinas. O foco está centrado na gestão dos 13 hospitais públicos, que consomem, com mais cinco Organizações Sociais mantidas pela SES, a metade do orçamento da Saúde, que está estimado em um total de 3,2 bilhões de reais.

RN: Você assume a pasta em um momento econômico complicado. Hoje de quanto é a dívida da secretaria e de que maneira pretende quitar esses débitos?
Vicente: O número gira em torno de R$ 350 milhões e pretendemos fazer um pagamento escalonado aos principais fornecedores e parceiros, como hospitais filantrópicos e fornecedores. Não será possível zerar neste ano, mas com o incremento de mais R$ 170 milhões ao orçamento em razão do aumento obrigatório de gastos do Governo de SC, que foi de 12% para 13%, esperamos em 2019 que a conta esteja equilibrada. Esta modificação foi feita pela Assembleia Legislativa (Alesc), promovida pela minha Comissão de Saúde, e somos o primeiro Estado brasileiro que trata desta forma a saúde.

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RN: Como “colocar a casa em dia”, continuar custeando todas as unidades de saúde sob a responsabilidade do Estado e ainda realizar investimentos em prol de um atendimento cada vez mais qualificado? Qual a matemática para isso dar certo?
Vicente: Vamos economizar através do processo de gestão, tomando iniciativas junto a Alesc para inibir o absenteísmo e criar uma estrutura como os hospitais públicos federais fizeram com a EBESERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), para profissionalizar as estruturas nos hospitais públicos de SC, hoje totalmente fora da realidade em termos de economia e produção.

RN: Como lidar com a falta de profissionais na saúde? Existe alguma previsão para abertura de concurso público?
Vicente: Este é o grande desafio e espero que seja meu legado: encaminhar uma solução definitiva para profissionalizar mais a estrutura. A SES tem hoje 10.400 funcionários na ativa, muitos se aposentando. O foco será no perfil e na maneira de contratação principalmente dos funcionários dos hospitais públicos. Do jeito que está não pode mais ficar. A folha de pagamentos é astronômica e nos últimos quatro anos receberam 100% de aumento após acordo feito entre as partes. Estamos no limite. Se compararmos a folha dos hospitais da SES com a folha dos hospitais filantrópicos é de cair duro… custa quatro vezes mais.

RN: Quantos leitos foram fechados em Santa Catarina no último ano? Há casos em que a demora para conseguir atendimento adequado é apontada como a responsável pela piora no quadro de saúde do paciente. Nesse sentido, estão previstos investimentos em infraestrutura para evitar que isso aconteça e impedir que vidas sejam perdidas?
Vicente: Temos em SC um total de 2.401 estabelecimentos de saúde. Temos 186 hospitais. Nosso Estado dispõe de 16.990 leitos: destes, 12.105 leitos são do SUS (71%). Estão em construção pelo Pacto Por SC, por meio da SES, 1.202 novos leitos que serão entregues até abril de 2018, alguns deles no segundo semestre deste ano. Agora é bom que se diga que muitos hospitais em SC, pela forma como são administrados, merecem ser fechados. Os avanços da medicina e a exigência de normas sanitárias impedem, por exemplo, o funcionamento de muitos centros cirúrgicos e maternidades pelo Estado afora e a má administração inviabilizou economicamente muitas estruturas hospitalares, que fecharam ou estão à beira de fechar.

RN: Como pretende administrar os recursos sem infringir a legislação. Uma parceria com a rede privada está nos planos?
Vicente: O que está claro é que as receitas advindas de tributos não são suficientes para atender a demanda crescente. Muitas pessoas saíram dos planos de saúde por causa do desemprego e migraram para o SUS. Estamos preparando uma grande mobilização em março da comunidade catarinense para que esta abra seu coração (e bolso) para os hospitais públicos e filantrópicos. Vejam só o exemplo de Jaraguá do Sul. Além disso, pagar em dia os parceiros hospitais filantrópicos já seria um excelente negócio, pois estes estabelecimentos fazem muito bem seu trabalho e atingem mais gente (70%) do que os hospitais públicos. Temos exemplos de sucesso aqui em nosso município. Gestão eficaz, com metas a serem atingidas, profissionais com formação específica e combate ao desperdício. Para a saúde pública, ficar na mesmice não trará nada especial, estamos vendo os maus resultados. Temos que revolucionar empregando métodos de gestão eficientes.

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RN: Qual a contrapartida do Governo Federal para a Secretaria da Saúde?
Vicente: Esperamos melhorar através da boa relação com o atual ministro da Saúde, Ricardo Barros, meu amigo desde Brasília, que inclusive atendeu meu convite para ver os hospitais de Jaraguá. O Ministro me sinalizou com boa soma de recursos para cirurgias eletivas. Nosso Estado tornou-se em janeiro deste ano, o mais disciplinado e organizado com as filas de cirurgias eletivas. Nossa Regulação funciona. Isso é muito importante, fazemos justiça social. Além dos recursos oriundos diretamente do Ministério, esperamos que o Governo Federal pague as emendas parlamentares federais, que só na parte da saúde giram em torno de R$ 190 milhões. Em relação a isto, cada parlamentar federal receberá da SES, este ano como inovação, uma sugestão de onde aplicar bem com as emendas.

RN: Como a secretaria irá trabalhar para atender a demanda crescente de usuários da saúde pública que perderam seus empregos ou se viram obrigados a deixar os planos de saúde por conta da crise financeira no país?
Vicente: Fazendo gestão com o recurso público disponível. Inovando através da otimização da rede básica, tornando o índice de resolutividade alto. Somos o Estado com a maior cobertura de rede básica no Brasil (80%) e estamos investindo pesado através do Tele-Saúde, programa este que leva informação a todos os 295 municípios de SC. O ministro ficou entusiasmadíssimo ao saber de nossa situação e pegou todas as informações possíveis. Além disso, precisamos e vamos investir mais em nossa já excelente Telemedicina. Hoje a dermatologia atende a 250 municípios com apenas quatro médicos vendo as imagens pelo computador. Pretendemos neste ano dar um salto com exames como o eletroencefalograma, a espirometria, holter, mapa e, por fim, quem sabe ainda neste ano, possibilitar que as equipes do Samu, por sinal o melhor do Brasil, possam fazer o trombolítico em pessoas que sofreram infarto do miocárdio na própria ambulância. O diagnóstico será feito por uma central que estará 24 horas por dia disponível para dar laudo no ECG. Será um enorme salto. Além disso, pretendo introduzir aplicativos aos cidadãos e software a toda rede de urgência de SC. Assim saberemos identificar mais e melhor nossas potencialidades e deficiências na área mais sensível que toca o cidadão: a vida na hora do aperto imediato.

RN: Que projetos tem para a região de Jaraguá do Sul e quais as principais carências da comunidade?
Vicente: Jaraguá do Sul está vivendo um momento grave em relação às suas finanças. A folha de pagamentos inchou demais e a cidade necessita aporte de recursos muito grande para compensar a dificuldade que tem hoje em investimentos e manutenção da máquina. Com isso, esperamos trazer imediatamente R$ 1 milhão para a construção de um posto de saúde no Bairro João Pessoa. Mas a minha maior preocupação é com os hospitais da região, para torná-los sustentáveis.

RN: Você defende que a iniciativa privada participe da administração de unidades de saúde do Estado através de doações, assim como já acontece em Jaraguá do Sul, onde a união de empresários foi fundamental para a ampliação de hospitais e compra de equipamentos. Isso não seria colocar sobre os outros uma responsabilidade que é do governo e que deveria ser bancada com os impostos pagos pela população?
Vicente: É o que eu mais sonho e defendo. Tem cidades que fazem filantropia de verdade, como Jaraguá do Sul. Mas tem cidades que não se doa nem um alfinete para os hospitais. Uma coisa chata de se dizer, mas acontece. Vamos tentar mudar este cenário e sensibilizar mais gente.

RN: Por fim, qual o balanço que faz da saúde atual em Santa Catarina se comparada ao restante dos Estados?
Vicente: Nossa situação é boa, porque temos excelente rede de serviços, uma população economicamente bem distribuída e o conjunto é muito bom se comparado aos demais Estados da federação. Apesar de nossa grande dívida na área pública, não temos salários atrasados na rede estadual de saúde e o governo não precisou aumentar impostos, como muitos outros fizeram. Estou otimista, mas realista ao mesmo tempo. Ficar prometendo e dando passo maior que a perna não é de meu feitio, mas inovar e exigir sim, principalmente no grande problema que é a gestão dos nossos 13 hospitais públicos. Nisso podem confiar sem temor. Estou dando o melhor de mim à frente desta pasta. Os bons influxos de toda parte do Estado vão me proteger e me iluminar para que eu possa deixar coisas positivas realizadas e também boas perspectivas, ou seja, deixar definido o caminho para solucionar as coisas erradas. Com isso, já terá valido a pena ser secretário da saúde!

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Dados da saúde de SC (de acordo com dados IBGE 2015):

– Mortalidade Infantil: SC – 9,9 a cada mil nascidos vivos; Brasil – 13,8; Parâmetro OMS – 10 sendo aceitáveis 15,6.

– Longevidade: SC – a maior do Brasil – 78,7 anos; Brasil 75,5 anos; (3,2 anos a mais que a média Nacional).

– Estratégia da Saúde da Família: implantada em 100% dos municípios (1.710 equipes de saúde da família).

– Transplantes: líder do ranking nacional de doadores por milhão de população; em 2016 o desempenho em doação de órgãos em nosso Estado foi superior ao da Espanha, país que é líder mundial.

– SAMU: oito Centrais de Regulação das Urgências; 23 Unidades de Suporte Avançado; 99 Unidades de Suporte Básico; dois helicópteros; dois aviões; 326.293 atendimentos em 2016 (crescimento de 121% em relação a 2010).

– Rede hospitalar própria: 1.190 leitos com 5.788.287 atendimentos nos últimos seis anos; programa de residência médica com 456 residentes.

– Sistema Catarinense de Telemedicina e Telessaúde: Plataforma tecnológica que dá suporte às atividades de Telemedicina e de Telessaúde integrando servidor central virtualizado, rede de servidores PACS e sistema Web e Mobile. Foca na melhoria dos processos na área de saúde pública, tanto na área hospitalar, laboratorial e na atenção básica. O modelo adotado em SC é referência nacional: 5,5 milhões de exames enviados desde a implantação em 2005; R$ 1.4 milhões de economia/ano na impressão de exames.