Professor… beberás da privada social

Foi-se a época de escola em que os pais cobravam nota dos filhos

2 min para ler 19 set, 17
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Tão sombrio quanto o título do presente artigo, parece ser o futuro da educação e a esperança do professor, cuja missão mais importante, é uma das menos reconhecida nesse ‘pobre’ país. O recente caso de indisciplina, rebeldia e desrespeito por parte de quatro alunas entre 10 e 11 anos de idade, de uma escola pública de nossa cidade, só confirma esse desalento. É compreensível que a surpreendente repercussão na mídia e redes sociais já tenha penalizado e desgastado sobremaneira as respectivas famílias, educadores e escola. Então, não se busca aqui julgar o mérito. No entanto, não podemos nos omitir do debate. O episódio retrata, em essência, uma página do ‘caderno’ da educação, mal escrita com tinta fresca. Uma página borrada que não poderá ser simplesmente virada ou arrancada, mas, sobretudo avaliada, atribuindo-se uma nota sofrível ou, conforme minha época, o temível N.A. – Necessita de Atenção. Um erro, cuja tentativa de reparo, se recomenda a aplicação do mata-borrão. A bem da verdade, vejo os professores agredidos desse ‘pobre’ país como a personificação desse ‘mata-borrão’ que, como bem traduziu Mário Quintana, “absorve tudo e no fim da vida acaba confundindo as coisas por que passou…o mata-borrão parece gente!”. A professora de nossa sociedade, que teve sua dignidade agredida e achincalhada, insiste em continuar com sua nobre missão. Ela representa esse mata-borrão capaz de absorver e filtrar cuspes e impurezas da privada social. O ‘caderno’ da educação está de ponta cabeça. Foi-se a época de escola em que os pais cobravam nota dos filhos.

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Hoje cobra-se nota dos professores. Se a função do professor há duas ou três décadas era professar conhecimento, hoje passou a ser mediar conflito. Se antes o professor reprovava por indisciplina ou falta de rendimento, hoje significa não atender o cliente. Se no passado, não tão distante, lhe cabia a autoridade natural, hoje lhe é imposta a obediência mercantilista. Carrego minha indignação contemplada na visão de Paulo Freire quando observa com propriedade que “ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e injustamente responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho”. Direi então que até podemos admitir certa rebeldia como característica intrínseca da adolescência e juventude. Mas o que estamos testemunhando no contexto escolar, e não podemos tolerar, é a transmutação dessa rebeldia em indisciplina, imoralidade, perversão, crueldade e violência. Enfim, tenho por denominador que não se concebe escola sadia numa sociedade doente, assim como, não haveria escola doente numa sociedade sadia.

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Por Nelson Luiz Pereira