Estupro – nossa renitente mazela III

Quando uma pessoa é estuprada, a sociedade toda é estuprada

2 min para ler 14 fev, 18

Mais uma vez, a notícia repugnante da semana, publicada no OCP, edição de 6/2/18, pág. 21, do jornalista Cláudio Costa, revela a vulnerabilidade de nossa sociedade perante o hediondo crime do estupro. Se essa mazela se mostra resistente, sigo sendo contumaz em abordá-la aqui, pela terceira vez. Infelizmente, os que deveriam estar lendo este conteúdo, usam o jornal para limpar o que traduz sua essência. De acordo com a referida matéria, esse crime faz uma vítima a cada 3,6 dias em nossa comunidade. Um índice assustador que nos causa vergonha, e ao mesmo tempo, perplexidade diante da apática reação da sociedade. Não nos damos conta de que, quando uma pessoa é estuprada, a sociedade toda é estuprada.

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Em que pese a eficiente e eficaz atuação de nossa polícia, torna-se imperativo que o poder público e sociedade civil organizada somem forças numa ampla e impactante campanha. Estamos falando de um dissimulado, silencioso e hediondo crime, com difícil prevenção e intervenção policial. Todavia, enquanto não temos mobilização conjunta, nada nos impede de, individualmente como cidadãos, partirmos para o combate. Basta que tenhamos consciência e conhecimento acerca da sórdida realidade que sustenta essa moléstia.

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Podemos iniciar admitindo algumas anomalias sociais ignoradas pela maioria das pessoas que, por conseguinte, potencializam esse mal: i) temos uma cultura do estupro promovida desde o berço. Se for menino espera-se que seja aguerrido e ‘pegador’; se for menina, que seja delicada e ‘cheirosa’. Portanto, padrões, scripts ou códigos já pré-programados, alicerçados no arquétipo patriarcal de sociedade; ii) somos também agentes promotores e disseminadores da cultura do estupro quando, rotineiramente, compartilhamos vídeos, imagens, comentários e piadas sexistas, ‘coisificando’ a mulher. Poucos se dão conta de que, nas profundezas dessa atitude, revela-se a necessidade de autoafirmação ou validação da masculinidade perante o grupo. Muitos não se dão conta de que, quanto mais se busca essa validação, menos se é; iii) ignora-se também que o ato ilícito, por parte do agressor, já se dá com a simples ausência de consentimento da vítima e não, necessariamente, com a agressão física. Obviamente esta situação não é computada nas estatísticas. Conhecemos só a ponta do iceberg; iv) notadamente, no que tange ao estupro de vulnerável, o inimigo está, comumente, dentro de casa. Pesquisas apontam que 70% dos casos são praticados por pai, padrasto, tio, avô ou padrinho, convertendo-se em punição apenas 10 a 15%. Lutemos com as armas que temos. A prevenção se constrói com muita atenção ao comportamento da vítima. Em se tratando de criança, o diálogo deve ser despido de tabus. A segurança é proporcional ao nível de transparência e confiabilidade no relacionamento com os filhos. O primeiro confronto é renunciar ao medo e covardia em denunciar. Providencial, por fim, a reflexão de Kurt Cobain: “estamos ensinando como não ser vítima. Como ensinar a não estuprar?”

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Nelson Luiz Pereira