Nelson Pereira debate a importância da literatura na sociedade brasileira

A construção do pensamento social através das obras literárias

4 min para ler 17 mar, 18

Em um país conhecido pelos baixos índices de leitura, Nelson Luiz Pereira é otimista: acredita que o hábito ainda será compartilhado por todos um dia e que a influência deve começar logo cedo, de casa. Jaraguaense de coração e natural do Rio do Oeste, interior do Estado, já foi diretor do jornal O Correio do Povo e atualmente é um dos integrantes do conselho editorial. O escritor também marca presença como colunista no site da Revista Nossa, sempre compartilhando a sua opinião sobre fatos e situações cotidianas. Em 2017, o administrador lançou sua primeira obra, nomeada “Palavra Aberta“, que aborda reflexões do autor sobre os mais diversos temas que cercam a sociedade em que vivemos atualmente.

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Em 2017, o administrador lançou sua primeira obra, nomeada “Palavra Aberta“.

Confira um bate papo exclusivo com o escritor, que sempre foi apaixonado pela literatura.

Comente sobre a sua relação com a literatura. Por que você escreve?
Meu despertar consciente com a literatura se dá no final do ensino médio. Eu sabia que o quesito fundamental para passar no vestibular era uma boa redação. Então uma professora me alertou que era indispensável conhecer os clássicos da literatura brasileira. Pela primeira vez li por inteiro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha e acabei concluindo que jamais seria aprovado num vestibular. Para minha surpresa, eu estava errado. Entrei na faculdade de Economia e me tornei um rato de biblioteca. No decorrer do curso li todos os clássicos de economia. Atualmente não me prendo a gêneros. Leio de tudo, desde que me agrade e o conteúdo agregue. No tocante à produção literária, minha experiência no meio jornalístico foi o que me instigou essa iniciação. Para mim, escrever é um exercício de lapidação da palavra para resinificação de meu mundo, embora me considere um protótipo de escritor ou, no máximo, um escritor em início de formação.

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Os temas que ultimamente lhe interessam, lhe instigam a escrever? É uma forma que o leva a uma ideia? Por onde começa a escrita?
Enquanto leitor, minha dinâmica é transitar por multigêneros literários. Encontro-me momentaneamente ancorado nos clássicos Oliver Twist, Balzac, Dante, Homero, Oscar Wilde, Victor Hugo, Cervantes, Camões, Edgar Allan Poe, Dostoiévski, Tolstói, Shakespeare e outros. Penso que um protótipo de escritor que não tenha lido os clássicos nacionais e internacionais dificilmente deixará a condição de principiante. Mas leio e gosto de filosofia, política, antropologia, astronomia, ficção, romance e poesia. Tenho muitos livros de nossos escritores de Jaraguá e região e procuro ler todos que consigo adquirir. Já enquanto escritor, entendo que a diversidade de gêneros lidos moldará e lapidará sua prática, embora não determine seu estilo. Portanto, meu ato de escrever inicia-se pelas inquietudes diante do mundo que me insiro, associadas ao desejo quase incontrolável de fugir do senso comum. Sendo assim, meus temas reflexivos acabam sendo os mais variados.

Qual relação de sua escrita com suas experiências?
Posso dizer que, se um dia venha a me tornar um escritor reconhecido, foi devido a experiência que vivenciei e continuo vivenciando no meio jornalístico. A experiência docente da academia, por 15 anos, também foi importante. Lá, a atividade de correção de TCC’s – Trabalho de Conclusão de Curso me proporcionou a base de como não escrever. Respeitando as exceções, obviamente.

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O papel da literatura na formação dos jovens de hoje é importante?
Soará clichê, mas com a massificação das tecnologias de informação, lamentavelmente torna-se cada vez mais insignificante a participação da literatura na formação dos jovens. Eles já não dispõem do tempo para leitura de uma obra por completo. Os que dispõem desse tempo, são pontos fora da curva. A propósito, ao discutir esse tema com um pai que acompanhava a criança em nossa última Feira do Livro, obtive dele o seguinte protesto: “Nelson, no Brasil o livro é muito caro”. Então recomendei à ele que não falasse isto perto do filho. Percebendo-o atônito, justifiquei: livro não é caro, porque não tem preço, livro tem valor. E preço é muito diferente de valor, percebe? Caro é álcool, cigarro, arma, droga. Então ele se pôs meio pensativo, mas acabou comprando dois livros para o garoto.

Qual a importância e o papel da literatura num país com tamanhas desigualdades sociais como o Brasil?
Penso que a literatura, de forma geral, é emancipatória. Pode parecer filosófico, mas quanto mais literatura absorvida por uma sociedade, mais livre esta será. Jaraguá cumpre seu papel com a Feira do Livro e outros projetos pontuais. A desigualdade é um problema considerável sim, porém, a atitude individual dos cidadãos tem o mesmo peso na balança. Logo na apresentação do meu livro “Palavra Aberta” faço uma referência à exemplar atitude da pequena “grande” pernambucana Rivânia, que surpreendida pelas cheias do final de maio de 2017 e resgatada às pressas de sua humilde residência, optara em salvar seus livros. Fato viralizado nas redes sociais e, notadamente, uma providencial mensagem à educação brasileira. Ela decide, com esse gesto, que vencerá a desigualdade. Com esse gesto ela está se insurgindo contra a lógica de um sistema político opressor e ilegítimo, cujo propósito é reinar sobre uma nação de mudos.

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Qual a importância da liberdade e democracia para a literatura?
Sustento, com plena convicção, que liberdade e democracia são determinantes para a literatura. Vejo na liberdade de expressão responsável e coerente o combustível da literatura. Fico imaginando quanta riqueza literária deixou de ser produzida ao longo de nossa histórica e insana ditadura. O reflexo desse déficit perdurará por gerações. Por isso, o conteúdo de meus textos certamente não será absorvido pelos que renegam a democracia. Mas isso também é democracia.

Seus projetos para o futuro como escritor?
No momento estou trabalhando um projeto em parceria com os escritores Carlos Henrique Schroeder e João Chiodini para produção de um livro que abordará o centenário do jornal O Correio do Povo e que será publicado em maio de 2019. Paralelamente, trabalho na criação de mais uma coluna semanal a ser publicada no OCP a partir de março intitulada “Guardião da História”, cujo conteúdo proporcionará ao leitor uma verdadeira viagem de volta ao tempo.