Latrocracia escravocrata

A escravidão apenas mudou de forma e circunstância

2 min para ler 29 out, 17
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O Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu, recentemente, liminar provisória suspendendo os efeitos da Portaria 1.129, do Ministério do Trabalho, que alterou a conceituação de trabalho escravo. Em sua peculiar temeridade, Temer, temeroso com o temerário índice de rejeição, busca reforçar sua blindagem tirando da cartola dois coelhos de uma vez. Como a estrutura e recursos de fiscalização são deficientes, restringe-se o conceito de trabalho escravo e, de troca, atende-se a bancada ruralista. Ganha-se nas duas pontas, economia de recursos e afago ao opressor. Um autêntico método clássico de sustentação do poder, fundamentado em três postulados maquiavélicos: i) “nunca tente vencer pela força o que pode ser ganho pelo engano”; ii) “os fins justificam os meios”; iii) “como é perigoso libertar um povo que prefere a escravidão!”. Minha inquietude paira, justamente, nessa última premissa. Por isso não pretendo explorar o mérito jurídico do trabalho escravo propriamente dito, aquele como meio de subsistência em condições degradantes, mas aquela escravidão que o povo brasileiro ‘prefere’, e que, por sua vez, sustenta a imperante latrocracia.

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Ao longo da história, a escravidão apenas mudou de forma e circunstância. O escravo da pólis grega tinha consciência de sua condição subserviente, assim como, tinha percepção de sua classe opressora. Já, o escravo contemporâneo sofre inconscientemente alienado. É escravo sem se dar conta. Eis alguns pressupostos que atestam essa assertiva: i) você é escravo quando não dispõe de dois terços do dia para o descanso, lazer e ócio benfazejo; ii) você também assume a condição de escravo quando sua felicidade está condicionada a obsessão de inutilidades, incluindo-se aqui a ditadura da estética corporal; iii) você segue sendo o mais expropriado dos escravos, quando trabalha cinco meses de seu ano para pagar impostos a ineptos e corruptos patrícios, e vendo seu país deteriorar; iv) por último, e o mais desgraçado dos vassalos, é aquele que se torna escravo de seus preconceitos e de seu excitado ego. Este é facilmente identificado pela necessidade de falar muito de si, ao invés de crescer em silêncio. Ao evidenciar reiteradamente seu valor, currículo e conquistas, escancara sua senzala existencial. O aforismo atribuído a Nietzsche de que “a arrogância por parte de quem tem mérito nos parece mais ofensiva que a arrogância de quem não o tem”, revela bem os grilhões desse perfil de escravo que se multiplica na sociedade moderna, popularmente conhecido como ‘mala’. Felizmente, em compensação, sempre haverá o alforriado, com seu ego pacificado. Esse não necessita medir-se com a medida do outro. Nutre uma vida simples, desprendida, emanando bem-estar e paz. Não alimenta preconceitos, tampouco conceitos inflexíveis ou hábitos rígidos. Por ora, como resumo da ópera, somos um pobre país que ainda vive e discute escravidão. Não é de ‘temer’?