Flórida e o dilema de armas

Um instrumento de violência

2 min para ler 5 mar, 18
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Uma das principais mazelas da sociedade americana segue resistente. Desta vez, entre tantas outras, o ataque se deu na Flórida. O mundo assistiu perplexo o resultado da insana ação premeditada do jovem Nikolas Cruz, de 19 anos, no dia 14 de fevereiro de 2018. Armado com um rifle AR-15, invadiu uma escola da qual teria sido expulso em 2017, na pacata Parkland, ceifando a vida de 17 pessoas, e deixando outras 14 feridas. Barbáries como essa inflamam a velha retórica acerca das armas. Persiste a recorrente indagação: o Estado deve armar ou desarmar o cidadão? Naturalmente as opiniões são divididas e fundamentadas em razoáveis, irracionais e patéticas justificativas. Vale dizer que a mais estúpida, e muito comum, é esta: “oras, se nos Estados Unidos pode, porque no Brasil não pode?”.

Manaus, 16/09/2015. TJAM encaminha 352 armas de fogo para destruição no 12º Batalhão de Suprimentos do Exército, no km 53 da AM-010. Foto: Raphael Alves

Diante dessa ambivalência, seria leviano refutar os incontáveis estudos científicos e estatísticas existentes de ambos os lados, pois quem conscientemente defende ou rejeita, o faz com sólidos fundamentos e convictos argumentos. Só não esqueçamos que os EUA é um ponto fora da curva. Enquanto a maioria das nações proíbe ou restringe o porte de armas, lá, duas forças implacáveis asseguram essa gritante exceção: i) o lobby da NRA (National Rifle Association), e ii) a secular cultura da arma. Essas duas forças são mais poderosas que o presidente e os legisladores juntos.

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Particularmente não tenho uma posição acabada sobre este tema justamente por entender que o fato de uma população estar armada ou desarmada não determina, necessariamente, mais violência ou menos. Minha concepção é de que, em essência, a violência não é produzida pela arma, mas pelo comportamento, cultura e atitude de quem a porta. Logo, por esse prisma, armar o brasileiro seria um genocídio. Portanto, não vejo sentido em insistir na retórica armar ou desarmar. O que deve haver é um amplo e profundo debate, seguido de políticas públicas, acerca das causas e ambiente da violência. Arma não configura causa de violência, ela é tão somente um instrumento de violência.

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Como fenômeno antropológico complexo, e um dos prazeres mais primitivos da espécie humana, a violência vale-se de qualquer meio ou instrumento para se consumar. Então, penso que não podemos nos nortear pelo poder midiático para fundamentar uma opinião sobre armas. Me parece prudente, antes disso, entender o que desencadeia a violência. Portanto, as reflexões que proponho são: i) será que o desenvolvimento científico e tecnológico da moderna sociedade, tem melhorado o padrão de vida do homem, extinguindo seu mal-estar existencial? ii) Será que essa mesma sociedade está tão provida de ‘meios’ para viver como de ‘motivos’? iii) Será que mazelas como desigualdade, instabilidade econômica, crise moral, corrupção, guerras, terrorismo, desemprego, fome, insegurança, xenofobia, homofobia, intolerância, extremismos, inoperância da lei, educação deficiente… adversidades estas geradoras de tantas paranoias e insanidades, não deveriam preceder o debate de armar ou desarmar? Pelo menos no Brasil, debater armas antes dessas questões, é pôr a carroça na frente dos burros.