O fogo da ignorância

Que possamos honrar o legado estampado na lápide do ‘falecido’ Museu Nacional

2 min para ler 11 set, 18

As chamas que lamberam aquele velho casarão abandonado na Quinta da Boa Vista, São Cristóvão, Rio de Janeiro, revelaram, num passe de mágica, um dos mais importantes patrimônios da humanidade. Antes do fogo, não existia a ‘Sala dos Dinossauros’; depois dele, descobriu-se o ‘Meteorito Bendegó. Antes, nunca se ouvira falar do ‘Caixão de Sha Amun en su’; depois, desvendou-se o ‘Trono de Daomé’. Antes, ignorava-se o esqueleto do ‘Angaturama Limai’, o maior dinossauro carnívoro brasileiro; depois, revelaram-se os ‘Artefatos de Civilizações Ameríndias’. Antes, desconhecia-se o ‘Crânio de Luzia’; depois, exteriorizou-se o ‘Sarcófago de Hori’. Antes, por ironia, uma placa na entrada aguardava 200 anos para ser lida; depois, se transformou em lápide funeral com a conhecida inscrição: “todos que por aqui passem, protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir seu próprio futuro”. Antes, as redes sociais não protestavam por seu abandono; depois, atônitos, todos choravam lágrimas de crocodilo. Enfim, antes daquele fogo avassalador, já não tínhamos muita consciência de quem éramos; depois dele, a confirmação de tratar-se de um povo em extinção, já que 20 milhões de memórias viraram cinzas. Quem sabe não seja esse o tom lúdico de transmitirmos esse drama aos nossos netos, como forma de aplacarmos nossa vergonha?

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Se assim o fizermos, que tenhamos a prudência de poupá-los em apontarmos um culpado. Estaríamos nos esquivando de uma culpa que é de todos. De um lado um Estado ausente, de outro, um povo cético e insensível por cultura e arte. Então, se não sentimos orgulho, não valorizamos e não protegemos nossa memória histórica, que possamos despertar a consciência de nossos netos, protegendo-os do fogo da ignorância. Do contrário, eles continuarão incendiando, demolindo e substituindo casarões por condomínios e shoppings; seguirão pichando monumentos históricos e ignorando museus. O fogo da ignorância que consumiu o Museu Nacional foi gerado por focos de incêndio latentes em todos os estados e municípios da federação. Nosso município não fica de fora. Temos aqui belos exemplos de preservação, mas também lastimáveis destruições. Significativa parcela da população ainda persiste na obtusa ideia de que patrimônio histórico, manifestações culturais e artísticas são inúteis, não agregam nada, consomem recursos e só atrapalham o desenvolvimento. É um pensamento infeliz e reducionista, dos que já dobraram o Cabo da Boa Esperança.

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Plantemos para gerações vindouras, esperando que este fogo não queime nossos projetos já consolidados, tampouco incendeie os projetos embrionários como nosso Festival de Cinema que caminha para a segunda edição, entre outros. Que possamos honrar o legado estampado na lápide do ‘falecido’ Museu Nacional.

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Nelson Luiz Pereira – Conselho Editorial OCP